Em entrevista concedida em junho de 2026, Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, traçou um diagnóstico pragmático sobre a atual fricção macroeconômica brasileira. Com a taxa básica de juros na faixa de 14,5% — e inflação orbitando em 5%, acima da meta de 3% —, o executivo descreveu um cenário onde o Banco Central independente se vê forçado a asfixiar o consumo e o investimento para conter a pressão gerada pela rápida expansão dos gastos governamentais. A dinâmica cria uma assimetria estrutural que afeta diretamente a alocação de capital e a alavancagem corporativa, exigindo resiliência de um ecossistema produtivo que opera próximo ao pleno emprego.
A anatomia do mercado de capitais sob juros restritivos
Sallouti resumiu a dicotomia das políticas públicas com uma metáfora precisa: o país opera com o acelerador pressionado na política fiscal e o freio acionado na política monetária. Esse vetor de forças opostas, segundo o CEO da instituição que possui cerca de 600 bilhões sob gestão, forçou uma adaptação profunda no balanço das empresas locais. Contrariando a intuição sobre economias de juros elevados, o executivo afirmou que o setor corporativo brasileiro é substancialmente menos alavancado do que se poderia esperar.
Essa adaptação reconfigurou a estrutura de financiamento no país. Sallouti destacou que o mercado de dívida no Brasil é desproporcionalmente maior que o de equity — uma inversão direta do modelo observado nos Estados Unidos. A distorção é acentuada não apenas pelo patamar restritivo dos juros, que recuaram de 15% para 14,5% nos meses anteriores à entrevista, mas também pela disponibilidade de produtos financeiros isentos de impostos, que capturam a liquidez e reduzem o apetite por risco acionário. Para contexto editorial, a BrazilValley aponta que a prevalência de instrumentos de renda fixa isentos é um traço histórico da regulação financeira nacional, frequentemente criticado por encarecer o custo de capital para inovação e expansão corporativa de longo prazo.
Resiliência em múltiplos descontados
Apesar do ambiente de crédito restritivo, o líder do BTG Pactual projetou confiança na capacidade produtiva do país, ancorada em vantagens comparativas estruturais. Ele descreveu o Brasil como uma potência agrícola, mineral, energética e ambiental, suportada por um mercado interno superior a 200 milhões de habitantes e uma base de consumidores digitalizada e adepta ao uso de tecnologia aplicada. Esse cenário, argumenta, sustenta tanto as companhias voltadas à exportação quanto aquelas focadas no mercado doméstico.
No front externo, as tensões tarifárias com os Estados Unidos foram tratadas com pragmatismo. Sallouti avaliou o atrito diplomático-comercial como administrável. A justificativa reside no déficit comercial que o Brasil mantém com os EUA e na natureza das exportações brasileiras, majoritariamente compostas por commodities que podem ser redirecionadas a outros compradores globais. Embora reconheça que empresas específicas sofram impactos severos, o executivo sustentou que a situação macroeconômica permanece controlável. Como resultado dessa resiliência aliada ao prêmio de risco exigido pelos juros altos, Sallouti apontou que os múltiplos das ações brasileiras encontram-se extremamente baratos quando comparados aos de seus pares globais.
A análise de Sallouti evidencia o custo de oportunidade imposto pela disfuncionalidade fiscal brasileira. Enquanto as empresas demonstram maturidade ao operar com baixa alavancagem e navegar tensões comerciais globais, o potencial de expansão via mercado de ações permanece represado pela atratividade da dívida. O desconto nos múltiplos do equity reflete não apenas o risco país, mas a penalidade estrutural de um ambiente onde a política monetária atua como único contrapeso a um Estado em expansão. O desafio central não é a capacidade das companhias de sobreviver aos 14,5%, mas o crescimento que deixam de capturar enquanto o fazem.
Fonte · Brazil Valley | Finance




