Em reportagem da Bloomberg publicada em maio de 2026, o diagnóstico sobre a infraestrutura global de energia aponta para uma ruptura histórica. Após duas décadas de demanda estagnada nas economias ocidentais, o consumo volta a acelerar abruptamente. O vetor principal é a infraestrutura de inteligência artificial e a transição para veículos elétricos e bombas de calor. Quatro corporações projetam investir mais de US$ 300 bilhões neste ano para sustentar essa expansão. As estimativas citadas indicam que a IA pode adicionar 15% à economia global na próxima década, mas exigirá, até 2030, o equivalente a todo o consumo elétrico do Japão. A projeção é que o mundo consuma o dobro de eletricidade até 2050, exigindo a adição de uma rede equivalente à dos Estados Unidos a cada cinco anos.
A física da transmissão e o imperativo térmico
Para lidar com esse volume, a arquitetura física da transmissão precisa mudar. A Veir, uma companhia que levantou mais de US$ 100 milhões de investidores como a Microsoft, foca na comercialização de cabos supercondutores. A tecnologia substitui os tradicionais condutores de cobre e alumínio por materiais que, quando resfriados a temperaturas extremas, perdem a resistência elétrica.
Tim Heidel, CEO da Veir, explica que o sistema utiliza nitrogênio líquido a 77 Kelvin para manter os cabos em estado supercondutor, permitindo o transporte de um volume substancialmente maior de energia em um espaço compacto. A promessa é reduzir a necessidade de novas linhas de transmissão, já que um único cabo supercondutor equivale a múltiplos cabos convencionais. O desafio comercial reside na complexidade da operação, que exige tubos de vácuo e suprimento contínuo do gás refrigerante, além da natural aversão ao risco das empresas de utilidade pública.
O déficit de inércia e a vulnerabilidade renovável
A expansão da capacidade esbarra em um desafio de estabilidade sistêmica provocado pela transição da matriz. Historicamente, redes elétricas dependem da inércia gerada por turbinas giratórias de usinas a carvão, gás ou hidrelétricas. Essa massa física em rotação atua como um amortecedor natural: em caso de falha abrupta, a energia cinética continua alimentando a rede por tempo suficiente para evitar um colapso. Painéis solares, no entanto, convertem luz diretamente em eletricidade, sem geradores giratórios.
O impacto dessa ausência de inércia ficou evidente em um recente apagão que atingiu Espanha e Portugal, custando cerca de 400 milhões de euros à economia espanhola. O evento foi impulsionado pela instabilidade em fazendas solares após a Espanha triplicar sua capacidade instalada em cinco anos. Para mitigar o risco, empresas como a europeia Statkraft estão instalando compensadores síncronos. Guy Nicholson, executivo da empresa, descreve o equipamento como uma máquina de cem toneladas girando a 1.500 rotações por minuto. O dispositivo fornece a inércia mecânica necessária para estabilizar a rede, simulando o efeito de uma usina fóssil, mas sem a queima de combustível.
Para contexto, a BrazilValley aponta que o gargalo de infraestrutura tende a reconfigurar o mapa de competitividade global em tecnologias de ponta, penalizando mercados com redes obsoletas. A reportagem corrobora essa dinâmica ao contrastar o Ocidente com a China, onde a geração de energia cresceu sete vezes desde o ano 2000, sustentada por uma cadeia de suprimentos ativa. Paralelamente, em regiões com déficit crônico como a África Subsaariana — onde 565 milhões não têm acesso à rede —, iniciativas como a Mission 300 do Banco Mundial buscam investir bilhões em micro-redes solares. No limite, a energia dita a capacidade de um país de hospedar as indústrias do futuro.
Fonte · Brazil Valley | Infrastructure




