Em apresentação realizada em junho de 2026, Elon Musk e Ian Doll, da equipe da Starlink, delinearam a próxima fase de expansão da infraestrutura da SpaceX: a alocação de data centers de inteligência artificial no espaço. A iniciativa, que integra a recém-absorvida xAI sob o guarda-chuva da "SpaceX AI", visa superar os limites físicos e energéticos da computação terrestre. Musk argumenta que o crescimento da civilização e da capacidade computacional exige a ascensão na escala de Kardashev — métrica teórica que mede o progresso tecnológico pela energia estelar aproveitada. Atualmente, a Terra consome menos de um trilionésimo da energia solar disponível. O plano da companhia é deslocar o processamento intensivo para a órbita, utilizando o vácuo espacial para resfriamento e captação solar direta, estabelecendo um novo paradigma para a infraestrutura de dados global.

A arquitetura do AI1 e o gargalo logístico

O design de referência do primeiro satélite, apelidado de AI1, opera com 150 kW de potência de pico e 120 kW de processamento sustentado. A estrutura funciona essencialmente como um rack de computação em órbita, projetado para abrigar chips como Nvidia Rubin, GB300 ou TPUs. A alimentação depende de painéis solares concebidos para gerar 250 watts por metro quadrado, enquanto a dissipação de calor é feita por radiadores duplos com capacidade de 1.400 watts por metro quadrado. A comunicação entre os satélites e a constelação Starlink ocorrerá via links de laser de baixa latência, operando a uma altitude de 600 a 800 quilômetros.

A viabilidade dessa infraestrutura depende da resolução do gargalo logístico de massa para órbita, papel atribuído à Starship. Musk destaca que a versão 3 do veículo já possui mais que o dobro do empuxo do foguete lunar Saturn V, com a versão 4 projetada para triplicar essa força. A meta operacional é saltar das atuais 2.500 toneladas anuais lançadas pela SpaceX para milhões de toneladas por ano em um horizonte de três anos, viabilizado pela reutilização rápida e total dos propulsores.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a transferência de data centers para o espaço mitiga dois dos maiores custos operacionais da infraestrutura de IA terrestre: a refrigeração líquida de servidores de alta densidade e a dependência de redes elétricas sobrecarregadas, embora imponha o desafio inédito de manutenção física nula após o lançamento.

Da escala orbital à manufatura lunar

O fornecimento de semicondutores para alimentar essa rede exigirá uma expansão industrial severa. A SpaceX planeja a construção da "Terafab", uma fábrica de chips com 100 milhões de pés quadrados — cerca de dez vezes o tamanho da Gigafactory da Tesla no Texas. O cronograma de implantação prevê atingir uma taxa anualizada de 1 gigawatt de computação espacial de IA até o final de 2027, escalando para 100 gigawatts em três anos e meio, até atingir o patamar de 1 terawatt.

Para ultrapassar a barreira do terawatt e buscar um aumento de mil vezes nessa capacidade, Musk aponta que a produção precisará sair da Terra. A estratégia de longo prazo envolve a manufatura local de painéis solares e radiadores na Lua. Aproveitando a ausência de atmosfera e a gravidade equivalente a um sexto da terrestre, a companhia projeta utilizar aceleradores de massa — canhões eletromagnéticos lineares — para lançar os satélites de IA diretamente no espaço profundo, eliminando a necessidade de propulsão química convencional.

A visão apresentada reposiciona a SpaceX não apenas como uma operadora de transporte aeroespacial, mas como a futura espinha dorsal da computação global. Ao fundir as demandas de processamento da xAI com a capacidade de manufatura de satélites da Starlink e a cadência de lançamento da Starship, a companhia tenta verticalizar a cadeia de suprimentos da inteligência artificial. Se a execução acompanhar a ambição das metas de carga, o teto de processamento deixará de ser ditado pela matriz energética terrestre, transferindo o limite primário para a capacidade da indústria de operar no vácuo.

Fonte · Brazil Valley | Technology