O mercado de criptomoedas construiu sua reputação sobre volatilidade e promessas de disrupção radical, mas a utilidade real da tecnologia encontrou seu product-market fit na eficiência das transferências internacionais. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Finance em 11 de maio de 2026, a distinção entre o volume de negociação especulativa e o uso como meio de pagamento fica clara. Segundo Matt Higginson, da McKinsey, embora a mídia reporte trilhões em volume de stablecoins, 99% desse montante está atrelado a operações de trading. O volume real de pagamentos gira entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões diários, totalizando cerca de US$ 390 bilhões anuais — um número que dobrou em relação ao ano anterior.
A mecânica invisível e o protagonismo asiático
Para contexto, a BrazilValley aponta que a consolidação de infraestruturas financeiras emergentes costuma ocorrer quando a complexidade técnica deixa de ser uma barreira e se torna invisível ao usuário final.
No ecossistema das stablecoins, Sebastian Cunningham, CEO da Remitly, descreve esse modelo como um "sanduíche de stablecoin". O usuário deposita dólares na plataforma, que converte os fundos para stablecoins. Esses ativos trafegam instantaneamente pela blockchain e, no país de destino, são convertidos para a moeda local. O cliente interage exclusivamente com as moedas fiduciárias nas pontas da operação, aproveitando a velocidade da rede descentralizada sem precisar gerenciar carteiras cripto complexas.
O impacto econômico dessa arquitetura é agudo em mercados dependentes de remessas. Wei Zhou, CEO da Coins nas Filipinas, afirma que os custos de envio caíram de 8% na década passada para a faixa de 2% a 4% devido a melhorias de conectividade bancária. Com o uso de stablecoins, essa taxa pode ser comprimida para até 0,5%. Considerando que 15 a 20 milhões de filipinos trabalham no exterior, a eficiência destrava capital imediato para a economia local. Dados da Artemus Analytics indicam que cerca de 60% desse volume de pagamentos já tem origem na Ásia.
Imperativo regulatório e coexistência bancária
A escalabilidade dessa infraestrutura exige conformidade institucional. Sopnendu Mohanty, ex-chefe de fintech da Autoridade Monetária de Cingapura, argumenta que o país lidera a adoção da tecnologia porque exige que as empresas mantenham reservas líquidas equivalentes a 100% dos ativos emitidos. Para ele, regras tradicionais contra lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo são inegociáveis no ambiente digital e devem guiar a expansão do setor.
Com a expectativa de novas legislações entrando em vigor nos Estados Unidos, o mercado se prepara para um salto de adoção. O transcript pontua que, uma vez estabelecida a conformidade legal e a infraestrutura básica, o sistema pode escalar de US$ 100 bilhões para US$ 1 trilhão em volume sem exigir novos custos marginais desproporcionais. Bancos tradicionais que se integram a essa dinâmica ganham vantagem competitiva; Zhou cita uma instituição filipina que saltou da décima para a terceira posição no mercado local ao fechar parcerias pioneiras com exchanges do setor.
Contudo, a velocidade irrestrita não é o objetivo final de todo o sistema financeiro corporativo. Mohanty observa que transferências de US$ 5 milhões não devem ser instantâneas — o atrito intencional previne erros críticos em grandes volumes. A liquidação imediata via blockchain é uma solução calibrada especificamente para remessas de baixo valor, onde a velocidade justifica o risco.
A narrativa original do mercado cripto, focada em desbancarizar o mundo e substituir Wall Street, cedeu espaço ao pragmatismo. As stablecoins provam seu valor não como uma alternativa antagônica ao sistema legado, mas como um trilho tecnológico superior que instituições financeiras tradicionais já começam a adotar. O futuro dessa tecnologia depende de regulação estrita e de sua capacidade de operar nos bastidores, atuando como uma utilidade invisível para o fluxo de capital global.
Fonte · Brazil Valley | Finance




