A base da riqueza americana não veste moletons do Vale do Silício nem comanda empresas de capital aberto. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Business em 26 de abril de 2026, dados compilados pelo economista de Princeton, Owen Zidar, revelam uma assimetria estrutural na economia: para cada CEO de empresa pública, existem mil donos de negócios privados com patrimônio líquido superior a US$ 10 milhões. A magnitude desse mercado invisível desafia a percepção pública de sucesso corporativo. Segundo a pesquisa que embasa o futuro livro The Everywhere Millionaire, dentistas americanos, de forma agregada, geram mais receita do que todas as ligas esportivas profissionais do país juntas — NFL, NBA e MLB combinadas.

A escala da infraestrutura e o prêmio da ineficiência

O caminho para capturar essa riqueza frequentemente passa pela aquisição de ativos subvalorizados ou negligenciados. Rich Kinder, fundador da Kinder Morgan, construiu uma das maiores empresas de dutos da América do Norte a partir de operações que a Enron, sua antiga empregadora, tratava como relíquias indesejadas da velha economia. Ao deixar o cargo de diretor de operações da Enron, Kinder assumiu o controle desses ativos com uma tese de eficiência operacional estrita e alavancagem calculada.

A operação começou com um valor de mercado de US$ 150 milhões e uma dívida equivalente, totalizando um valor de firma pouco acima de US$ 300 milhões e 175 funcionários. A estratégia de Kinder baseou-se em utilizar o crescimento das ações para financiar novas aquisições, sem pagar prêmios excessivos, mantendo o foco em um setor fundamentalmente desprovido de glamour. Hoje, a companhia investe entre US$ 3 bilhões e US$ 3,5 bilhões anualmente apenas na construção de novos dutos.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a tese de consolidar ativos de infraestrutura madura encontrou forte tração institucional nas últimas décadas, com fundos de private equity replicando o modelo de controle de custos e expansão inorgânica em setores de utilidade pública, embora o vídeo foque estritamente na trajetória individual de fundadores.

Empreendedorismo por aquisição e sucessão demográfica

Abaixo da escala multibilionária da infraestrutura, uma dinâmica demográfica impulsiona a transferência de riqueza no mercado de pequenas e médias empresas. Profissionais que deixam o mundo corporativo estão adotando o empreendedorismo por aquisição como uma rota ajustada ao risco. O caso de Ray e Dana Chery ilustra o movimento: o casal deixou carreiras em finanças e marketing para comprar a Monsam Portable Sinks, uma fabricante de pias portáteis na região da Baía de São Francisco.

O negócio, fundado há quase três décadas por um engenheiro para resolver problemas de inspeção sanitária de vendedores de rua, construiu uma base de 11 mil clientes. Em vez de buscar o risco binário da criação de um novo produto, os compradores focaram na lucratividade histórica e no product-market fit já estabelecido por proprietários que chegaram à idade de aposentadoria.

Zidar, que atuou no Conselho de Consultores Econômicos durante o governo Obama, nota que embora a manufatura impulsione quase metade dos lucros corporativos, ela representa uma fatia pequena da renda que flui para negócios privados milionários. A concentração dessa riqueza invisível ocorre, na verdade, em setores como serviços profissionais, construção civil e finanças.

O contraste entre a visibilidade midiática e a realidade dos balanços financeiros sugere que a inovação tecnológica monopoliza a atenção, mas não necessariamente a acumulação de capital. A economia dos "milionários de toda parte" opera sob uma lógica de previsibilidade, onde a compreensão profunda de ativos tangíveis e a disciplina na alocação de capital superam a busca por disrupção. O risco não é eliminado, mas é mitigado pela escolha consciente de mercados onde a demanda é entediante, constante e, sobretudo, lucrativa.

Fonte · Brazil Valley | Business