A riqueza privada americana não se concentra onde a mídia financeira aponta. Pesquisa conduzida por economista de Princeton — citada pela Bloomberg como base empírica do argumento — indica que a maioria dos milionários do país construiu patrimônio em negócios privados operando em setores que analistas de venture capital raramente cobrem: infraestrutura, serviços industriais, equipamentos de nicho. A narrativa dominante, centrada em IPOs tecnológicos e rodadas de Series B, distorce a percepção sobre os mecanismos reais de acumulação de capital.
A Lógica dos Ativos Chatos
Rich Kinder é o exemplo mais contundente dessa dinâmica. Depois de deixar a Enron em 1996 — empresa que se tornaria símbolo do excesso especulativo dos anos 2000 —, Kinder comprou gasodutos que ninguém considerava ativos de prestígio. A Kinder Morgan, que ele cofundou com William Morgan por cerca de 40 milhões de dólares, tornou-se uma das maiores operadoras de infraestrutura energética dos Estados Unidos, avaliada em dezenas de bilhões. O ativo subjacente era simples: tubulações que transportam gás natural, com contratos de longo prazo e fluxo de caixa previsível. Nenhuma disrupção, nenhuma plataforma, nenhum efeito de rede.
A estrutura econômica desses negócios explica o apelo. Setores com baixa atratividade para capital de risco — justamente por carecerem de crescimento exponencial — tendem a ter menos competição, margens estáveis e barreiras de entrada construídas ao longo de décadas. Um gasoduto não compete com um aplicativo lançado na semana seguinte. Essa inércia, normalmente vista como fraqueza estratégica, funciona como proteção de mercado.
Comparativamente, o modelo contrasta com o ciclo de startups: enquanto empresas financiadas por VC frequentemente operam com prejuízo por anos para capturar market share, negócios de infraestrutura e serviços industriais geram caixa desde cedo, permitindo reinvestimento sem diluição de equity.
Da Infraestrutura Energética à Pia Portátil
Ray e Dana Chery representam a versão contemporânea da mesma aposta. O casal está construindo um negócio em torno de pias portáteis — equipamentos de higiene para eventos, canteiros de obras e locais sem acesso a água encanada. O mercado é fragmentado, pouco tecnológico e ignorado por fundos de crescimento. É exatamente o tipo de nicho que a pesquisa de Princeton identifica como fértil para acumulação privada de riqueza.
O paralelo com Kinder não é superficial. Ambos os casos envolvem a identificação de infraestrutura necessária que o mercado subestima por falta de glamour narrativo. Uma pia portátil resolve um problema logístico real em eventos de grande escala, obras e emergências sanitárias — setores com demanda constante e baixa inovação incremental. A barreira de entrada não é tecnológica, mas operacional: logística de distribuição, manutenção de equipamentos, relacionamento com gestores de eventos e construtoras.
O risco, naturalmente, é diferente do risco tecnológico. Não há chance de crescimento de 100x em três anos, mas também há menor probabilidade de destruição total do capital. Para os Chery, a aposta é que a execução consistente em mercado negligenciado vale mais do que participar de uma corrida de alta visibilidade com dezenas de competidores capitalizados.
O que fica sem resposta é a questão de escala e replicabilidade no contexto brasileiro, onde infraestrutura é historicamente dominada por concessões públicas e capital estrangeiro. O argumento de Princeton é robusto para o mercado americano — resta saber se a mesma lógica se aplica a economias onde o acesso a crédito privado de longo prazo é estruturalmente mais restrito.
Fonte · The Frontier | Business




