A física não tem equação para o presente. Passado, presente e futuro coexistem na geometria do espaço-tempo de Einstein com a mesma validade ontológica — o que chamamos de "agora" é um artefato da percepção, não uma categoria da realidade. Essa é a tese central que Jim Al-Khalili, físico teórico da Universidade de Surrey e autor do próximo On Time: The Physics That Makes the Universe (Princeton University Press, 2025), defende ao longo de quase 80 minutos de entrevista estruturada em cinco capítulos. O argumento não é novo, mas raramente é exposto com tanta clareza didática — e raramente vem de alguém que transita com igual fluência entre relatividade geral, mecânica quântica e biologia quântica.

O bloco-universo e o fim do tempo absoluto

A ruptura começa com Einstein. Antes da relatividade especial, publicada em 1905, o tempo era newtoniano: absoluto, universal, idêntico para todos os observadores. Einstein eliminou esse conforto ao demonstrar que simultaneidade é relativa ao referencial. Dois eventos que ocorrem "ao mesmo tempo" para um observador podem ocorrer em sequências opostas para outro em movimento relativo. A consequência filosófica é radical: se não há simultaneidade absoluta, não há "agora" absoluto — e, portanto, não há fluxo objetivo do tempo.

Essa posição, conhecida como eternalismo ou bloco-universo, coloca Al-Khalili em oposição direta ao presentismo — a visão de que apenas o instante presente existe de fato. O debate entre as duas posições, que o físico situa no capítulo dedicado ao tema, não é meramente acadêmico: ele determina se o livre-arbítrio, a causalidade e a identidade pessoal fazem sentido como conceitos físicos ou se são apenas narrativas que o cérebro constrói para organizar a experiência.

A evidência experimental mais acessível para a dilatação do tempo — citada por Al-Khalili — são os múons cósmicos. Essas partículas subatômicas, criadas a cerca de 15 km de altitude quando raios cósmicos atingem a atmosfera, têm meia-vida de aproximadamente 2,2 microssegundos. Em repouso, não deveriam alcançar a superfície terrestre. Chegam porque, viajando a velocidades próximas à da luz, seu tempo interno se dilata o suficiente para que percorram a distância. O tempo, aqui, não é metáfora: é mensurável, variável, dependente do estado de movimento.

Entropia, emaranhamento e a seta do tempo

Se o bloco-universo elimina o fluxo do tempo nas equações fundamentais, surge um problema imediato: por que a experiência tem direção? Por que lembramos do passado e não do futuro? A resposta convencional recorre à termodinâmica — especificamente à Segunda Lei, que impõe crescimento de entropia em sistemas fechados. O passado tem baixa entropia; o futuro, alta. A seta do tempo é estatística, não fundamental.

Al-Khalili, cujo trabalho acadêmico inclui sistemas quânticos abertos e efeitos quânticos em biologia, avança além da termodinâmica clássica ao introduzir o emaranhamento quântico como variável relevante para a direção temporal. Sistemas emaranhados compartilham informação de forma não-local — e à medida que um sistema quântico interage com seu ambiente, o emaranhamento se espalha irreversivelmente. Esse processo, chamado de decoerência, pode ser o mecanismo pelo qual a seta do tempo emerge do substrato quântico, sem precisar ser postulada como axioma externo.

A pergunta sobre se o tempo começou no Big Bang — e se terminará — ocupa o capítulo final da entrevista. Al-Khalili não oferece resposta definitiva, o que é intelectualmente honesto: a singularidade cosmológica marca o limite das equações conhecidas. A relatividade geral quebra nesse ponto; a mecânica quântica ainda não foi reconciliada com ela de forma satisfatória. O próprio Al-Khalili, em trabalhos anteriores sobre sistemas quânticos abertos, opera exatamente nessa fronteira.

O que fica sem resolução — e é o nó central do campo — é a incompatibilidade entre relatividade geral e teoria quântica de campos. A relatividade exige espaço-tempo contínuo e curvo; a mecânica quântica, granularidade e superposição. Até que uma teoria de gravidade quântica seja estabelecida, qualquer afirmação sobre a natureza última do tempo permanece especulativa. Al-Khalili tem o mérito de deixar essa fronteira visível, sem fingir que ela já foi cruzada.

Fonte · The Frontier | Science