Em análise recente sobre o cenário macroeconômico da Argentina, o indicador mais revelador da gestão de Javier Milei não é a queda pontual da inflação, mas uma métrica comportamental: a proporção de depósitos em dólares no sistema bancário. Diferente do Brasil, a legislação argentina permite contas correntes em moeda americana. No fim de 2023, sob a administração de Alberto Fernández, esses depósitos representavam apenas 15% da oferta monetária (M2) do país, refletindo o temor de confiscos. Atualmente, esse índice saltou para 33%, aproximando-se do recorde de 35% registrado no início de 2019, durante a era Macri. O movimento sinaliza que a população projeta sustentabilidade no programa de estabilização, reduzindo o risco percebido de uma desvalorização abrupta ou de intervenções estatais nos moldes do corralito de 2001.

O freio na expansão do agregado M2

A recuperação da confiança está ancorada em uma contração rigorosa da oferta de dinheiro. A inflação argentina, que atingiu um pico de 300% após a liberação inicial de preços represados pelo governo anterior, registrou 2,6% em abril, com a taxa anualizada recuando para 32,4%. Esse arrefecimento é um reflexo direto da contenção operada pelo Banco Central do país.

Os dados indicam que a base monetária caiu de quase 45 trilhões de pesos em meados do ano passado para 41 trilhões. Mais crucial para a dinâmica de preços é o comportamento do M2 — que engloba o papel-moeda em poder do público e os depósitos bancários. O M2 estabilizou em 127 trilhões de pesos, após bater quase 140 trilhões em dezembro. O crescimento anual do agregado desacelerou para 29,1%, o menor patamar em cerca de dez anos, com a variação mensal marcando apenas 0,1%.

Além da frente monetária, a atividade econômica apresenta sinais de tração. O índice de atividade (PIB) com ajuste sazonal atingiu 156,3, o maior nível da série histórica, superando os picos de 2022 e 2025. O superávit comercial operou na máxima desde 2009, impulsionado pelos setores de agro, energia e mineração, permitindo que as reservas internacionais chegassem a quase US$ 46 bilhões. O risco país também estabilizou ao redor de 500 pontos — ainda elevado em comparação aos cerca de 120 pontos do Brasil, mas distante da volatilidade extrema do ano anterior.

O termômetro da dolarização interna

A estabilização do câmbio, que nos últimos doze meses operou em uma banda estreita entre 1.440 e 1.490 pesos por dólar, forneceu o alicerce para o retorno dos depósitos em moeda forte. Historicamente, a relação do argentino com o sistema bancário é pautada pela desconfiança. No final de 2001, a proporção de depósitos em dólares sobre o M2 disparou artificialmente para mais de 45% devido à poupança forçada do corralito. O efeito rebote foi uma perda total de credibilidade e a fuga massiva de capitais.

A reconstrução dessa confiança é um processo não linear. Durante o governo de Cristina Kirchner, os controles de capitais derrubaram os depósitos. Houve uma retomada no governo Macri, mas a fragilidade política que culminou em sua derrota reverteu a tendência. Para contexto, a BrazilValley aponta que, em economias emergentes com histórico de hiperinflação, reverter a fuga de capitais sem a imposição de travas de saque é um dos testes mais complexos de qualquer plano de estabilização, exigindo uma ancoragem crível das expectativas fiscais.

O salto recente para 33% de depósitos em dólares no M2 sugere que essa ancoragem está ocorrendo. O cidadão argentino está, na prática, mantendo moeda forte no sistema financeiro doméstico em vez de escondê-la fora do circuito bancário oficial.

O programa de estabilização conseguiu alinhar a disciplina fiscal à contenção da oferta monetária, estancando a perda contínua de poder de compra do peso. Embora a herança de décadas de desordem econômica exija reformas estruturantes e a inflação acima de 30% ainda demande controle, a estabilização dos agregados altera a trajetória do país. O retorno dos dólares aos bancos locais prova que o mercado interno começou a precificar a normalidade institucional.

Fonte · Brazil Valley | Finance