A IMAX mantém, em sua sede em Los Angeles, uma operação inteiramente analógica que poucos fora da indústria conhecem: um cofre de cópias em película 70mm, técnicos especializados em emenda manual de rolos e uma sala de projeção privativa onde diretores comparecem pessoalmente para aprovar a versão final de seus filmes antes do lançamento. Num momento em que a indústria discute a irrelevância das salas físicas, essa infraestrutura existe e opera — não como nostalgia, mas como padrão técnico que nenhum pipeline digital reproduziu de forma equivalente.
A Física do Formato
O filme 70mm da IMAX usa um quadro de imagem com área aproximadamente dez vezes maior que o 35mm convencional — o que se traduz em resolução nativa que rivaliza, e em muitos casos supera, os melhores sistemas de projeção laser 4K disponíveis hoje. O formato foi desenvolvido originalmente nos anos 1970 e ganhou novo impulso comercial com Christopher Nolan, que filmou partes de Dunkirk (2017) e Oppenheimer (2023) em câmeras IMAX 65mm, gerando negativos que só entregam sua qualidade plena quando projetados em película.
Os rolos que chegam ao cofre da IMAX em LA têm altura comparável à de uma pessoa — uma consequência direta da quantidade de filme necessária para uma longa-metragem nesse formato. A emenda manual realizada pelos técnicos não é um procedimento arcaico tolerado por tradição: é uma etapa crítica de controle de qualidade, porque qualquer imperfeição na junção aparece amplificada numa tela de 20 metros. A precisão exigida é cirúrgica, e o conhecimento é transmitido por uma cadeia de especialistas cuja formação não tem equivalente em cursos técnicos convencionais.
Comparativamente, o DCP — Digital Cinema Package, padrão adotado por praticamente todas as salas do mundo desde meados dos anos 2000 — opera com arquivos comprimidos em resolução máxima de 4K. Para a maioria dos filmes e das salas, a diferença é imperceptível. Para o topo da pirâmide IMAX, não é.
A Sala de Aprovação como Ritual de Controle
A cabine de projeção da sede da IMAX em Los Angeles cumpre uma função que vai além da técnica: é o ponto onde o diretor confronta fisicamente o que o público vai ver. Esse ritual de aprovação — em que a cópia projetada é literalmente assinada — cria um documento de intenção artística que não existe no fluxo digital, onde versões podem ser alteradas remotamente após o lançamento.
Isso tem implicações práticas. Quando Nolan exige que Oppenheimer seja exibido em 70mm em determinadas salas, ele está garantindo que a cópia projetada passou por esse processo de verificação e aprovação. A assinatura física é, nesse contexto, um mecanismo de controle de versão — algo que o software de distribuição digital ainda não replicou com a mesma rigidez contratual e simbólica.
A visita de Adam Savage, apresentador do canal Tested e ex-membro do elenco de MythBusters, funciona como documento jornalístico de uma operação raramente acessível ao público. O canal, produzido por Joey Fameli, registra detalhes operacionais — dimensões dos rolos, dinâmica da sala de projeção, rotina dos técnicos — que raramente aparecem em cobertura especializada de cinema.
O que permanece sem resposta é a questão de sustentabilidade do modelo: quantas salas no mundo ainda operam projetores 70mm calibrados para o padrão IMAX? Qual é o custo por cópia versus o retorno de bilheteria? E, à medida que a geração de técnicos especializados em emenda manual se aposenta, quem forma os substitutos? A infraestrutura existe — mas sua longevidade depende de decisões econômicas que nenhuma assinatura de diretor resolve.
Fonte · The Frontier | Movies




