A subordinação da infraestrutura urbana à paisagem original não é uma pauta exclusiva do urbanismo contemporâneo. Em entrevista ao Trip FM, o arquiteto Sidônio Porto argumenta que o papel central da arquitetura é organizar o bem viver humano por meio de cidades que ofereçam distâncias curtas, segurança e contato com a natureza. Formado no início dos anos 1960 pela Universidade Federal de Minas Gerais, Porto consolidou uma carreira inicialmente marcada pelo brutalismo e pelo uso de concreto pré-moldado em São Paulo — exemplificado no projeto do Edifício Oscar Americano, na Avenida Paulista. Contudo, sua principal contribuição conceitual reside na tese de que a intervenção humana no espaço deve, muitas vezes, priorizar o recuo estratégico em vez do adensamento irrestrito.
A gramática da preservação litorânea
O principal estudo de caso dessa filosofia é o projeto de ocupação da praia de Itamambuca, em Ubatuba, concebido por Porto em 1966, quando era recém-formado. Ao visitar o terreno original — então ocupado por pastos e acessível apenas pelo cruzamento de um rio, antes mesmo da construção da rodovia Rio-Santos —, o arquiteto definiu que a praia não deveria ser engolida pela alvenaria. A solução imposta foi afastar o primeiro loteamento em 75 metros a partir da linha da água.
Além desse afastamento linear, o projeto estipulou que as residências fossem construídas com recuos internos, mantendo as estruturas escondidas. O objetivo era permitir o crescimento do jundu, a vegetação nativa, devolvendo ao ambiente o aspecto original que havia sido degradado por antigas queimadas voltadas à criação de gado.
Para contexto, a BrazilValley aponta que o modelo de Itamambuca contrasta frontalmente com o padrão de desenvolvimento imobiliário adotado em diversas faixas do litoral brasileiro nas décadas seguintes, onde a maximização da área construída levou propriedades diretamente para a faixa de areia, gerando estrangulamento viário e degradação ambiental acelerada.
A madeira como infraestrutura de longo prazo
Além da alocação espacial, Porto defende uma mudança na materialidade das construções. Questionado sobre o uso de madeira na arquitetura contemporânea, o arquiteto afirma que o Brasil possui condições ideais — espaço físico, insolação e recursos hídricos — para liderar o desenvolvimento florestal voltado à construção civil, apoiado pela forte tecnologia agropecuária do país. Ele argumenta que a madeira é um material nobre que deve ser aproveitado de forma racional, por meio de áreas de plantio manejadas e replantadas sequencialmente.
A aplicação prática dessa visão se reflete na própria residência litorânea do arquiteto. Porto cita que a casa, construída há mais de duas décadas, utiliza concreto apenas na fundação e em uma laje elevada para garantir ventilação cruzada no subsolo. Dali para cima, toda a estrutura e os caixilhos são de madeira. Ele estende essa lógica ao ambiente urbano mais denso, afirmando que é perfeitamente viável utilizar madeira em edifícios de grande porte, desde que os projetos contem com cálculos estruturais rigorosos e sistemas adequados de proteção contra incêndio.
A trajetória de Sidônio Porto evidencia que a inteligência no ambiente construído frequentemente dispensa o excesso de intervenção em favor da observação rigorosa do terreno. Ao optar pelo recuo absoluto em Itamambuca e defender a engenharia de materiais renováveis, o arquiteto demonstra que a restrição voluntária não limita o desenvolvimento imobiliário, mas garante sua longevidade. Em um cenário de adensamento urbano crítico, a obra de Porto serve como um lembrete técnico de que o melhor design, por vezes, é aquele que decide conscientemente onde não construir.
Fonte · Brazil Valley | Architecture




