Em transmissão oficial do voo de teste realizado em maio de 2026, o primeiro lançamento da Starship versão 3 (V3) consolidou a arquitetura do veículo ao focar na coleta de dados sob condições extremas e falhas induzidas. A missão suborbital não buscou um perfil de voo perfeitamente nominal, mas sim validar limites estruturais e redundâncias de sistema. Apesar de anomalias na propulsão tanto no propulsor Super Heavy quanto no estágio superior, a nave completou sua trajetória até o Oceano Índico em menos de uma hora. O avanço central do teste esteve na demonstração prática da capacidade de compensação do veículo e na operação de novas tecnologias de inspeção orbital, fundamentais para a viabilidade da reutilização rápida prometida pelo programa.
Resiliência de propulsão e inspeção em órbita
A ascensão inicial gerou cerca de 18 milhões de libras de empuxo com os 33 motores Raptor 3 no propulsor V3. Após a separação bem-sucedida dos estágios (hot staging), o propulsor Super Heavy encerrou prematuramente sua queima de retorno, não acendendo todos os motores previstos e amerissando no Golfo do México. No estágio superior, um dos motores Raptor Vacuum (ARVAC) falhou. A equipe de transmissão confirmou que a nave compensou a perda utilizando sua capacidade de voo com motor inoperante ("engine out"), ajustando o empuxo dos cinco motores restantes para manter a trajetória suborbital. Devido a essa falha, o teste de religamento do motor no espaço foi cancelado.
No espaço, a operação validou o dispensador de carga útil atualizado, que ejetou 22 satélites. O lote incluiu 20 simuladores de massa e dois satélites modificados, chamados internamente de "Dodger dogs". Estes últimos carregavam tecnologias da futura geração V3 da Starlink — projetada para oferecer 60 terabits por segundo de capacidade de downlink por satélite — além de um sistema de câmeras e iluminação.
A função primária desses dois satélites finais foi atuar como inspetores orbitais. Após a ejeção, eles utilizaram luzes direcionais para capturar e transmitir imagens do escudo térmico da Starship enquanto se afastavam. A equipe destacou que essa inspeção visual externa é um requisito crítico para as futuras manobras de captura na torre, permitindo avaliar a integridade das placas térmicas antes da reentrada.
Estresse aerodinâmico e reentrada hipersônica
A fase de reentrada foi projetada para testar os limites físicos da Starship através do campo de plasma hipersônico. Durante a descida, a nave executou uma manobra intencional de estresse estrutural a Mach 7. Conhecida como "flap slap", a ação consistiu em elevar o nariz do veículo e acionar totalmente os flaps inferiores sob alta pressão dinâmica. O objetivo foi forçar a estrutura aerodinâmica além dos parâmetros de um voo padrão, aproveitando o peso extra do propelente retido nos tanques frontais devido ao cancelamento da queima orbital.
Além da manobra de estresse, a equipe monitorou o comportamento de placas térmicas instaladas no lado protegido (leeward) da nave, uma modificação feita especificamente para testar novos métodos de fixação. O veículo também simulou a curva de inclinação necessária para um futuro retorno à base de lançamento (RTLS), executando a manobra sobre o Oceano Índico antes de realizar o giro de transição para a vertical (belly flip).
Para contexto, a BrazilValley aponta que a filosofia de testar hardware até o limite de falha aerodinâmica em voo difere historicamente dos programas espaciais tradicionais, que costumam priorizar a preservação integral do veículo em estágios de desenvolvimento.
O voo foi concluído com a ignição de apenas dois motores Raptor ao nível do mar para a queima de pouso, em vez dos três tradicionalmente planejados. A Starship V3 realizou uma amerissagem suave no Oceano Índico, confirmando a robustez do software de controle. O teste prova que a arquitetura tolera perdas de propulsão e sobrecargas estruturais severas, transferindo o risco operacional do papel para o ambiente real de voo.
Fonte · Brazil Valley | Space




