A tese central de Scott Galloway sobre a revolução da inteligência artificial contraria o otimismo reinante no Vale do Silício: há uma chance substancial de que a tecnologia se torne um marco civilizacional incapaz de concentrar valor para os acionistas. Em vídeo publicado no canal The Frontier | Podcast em 6 de maio de 2026, o empresário argumenta que a atual febre de investimentos em infraestrutura de IA carrega os mesmos sinais de colapsos passados, agravada pelo risco de que a convergência técnica transforme os modelos de linguagem em commodities sem margem de lucro.

O precedente histórico e a destruição de valor

Galloway fundamenta seu ceticismo em uma métrica histórica: sempre que os gastos com infraestrutura ultrapassam a marca de 2% a 3% do PIB, uma correção severa do mercado se segue. O padrão foi observado nas ferrovias, na eletrificação, no início da internet e na expansão das telecomunicações com a Global Crossing. A geração atual de investidores, segundo ele, opera sob a falsa premissa de que qualquer avanço tecnológico resulta em um pequeno oligopólio capturando trilhões em valor de mercado, usando o e-commerce e as redes sociais como régua absoluta.

O contraponto oferecido no vídeo reside em inovações de impacto massivo que nunca enriqueceram seus acionistas na mesma proporção. A aviação civil a jato desbloqueou o bem-estar global, mas a indústria como um todo opera no zero a zero financeiro. O mercado de PCs viu gigantes como a Gateway Computer serem vendidas por frações do que as grandes empresas de tecnologia oscilam em um dia de pregão. As vacinas, classificadas pelo falante como a segunda maior inovação da história, viram empresas como a Moderna perderem 90% de seu valor de mercado recentemente. Para a inteligência artificial, a ameaça à rentabilidade é endógena: a própria IA tira a IA do negócio. Todos os modelos estão convergindo para a mesma capacidade por meio de engenharia reversa, corroendo o poder de precificação das empresas que levantaram bilhões para construir data centers.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a dinâmica de comoditização de infraestrutura tecnológica frequentemente transfere o valor da camada de fundação para a camada de aplicação, um ciclo visto na expansão da internet móvel, ainda que a análise do vídeo foque estritamente no colapso das margens dos provedores originais.

Geopolítica, dumping e a necessidade de correções

O cenário de risco se agrava ao entrar na esfera geopolítica. Galloway teoriza que a China poderia utilizar modelos de código aberto como uma arma econômica contra os Estados Unidos. Comparando a tática ao dumping de aço chinês no mercado americano nas décadas de 1980 e 1990, ele sugere que inundar o mercado corporativo com IA barata ou gratuita destruiria as justificativas de avaliação de empresas de fundação. Como 40% do S&P 500 e a maior parte do crescimento recente do PIB americano estão atrelados ao gasto de capital em IA, esse choque de preços poderia desencadear uma recessão imediata.

Longe de temer uma recessão, o falante a classifica como um processo de limpeza saudável. Ele critica a atual cultura de resgates governamentais — citando discussões sobre empréstimos de meio bilhão de dólares para a Spirit Airlines — como uma transferência de riqueza que rouba da geração mais jovem a oportunidade de comprar ativos na baixa. Relembrando sua própria experiência de ver a receita publicitária do The New York Times despencar 70% em 60 dias durante a crise de 2008, Galloway argumenta que os jovens deveriam torcer por uma correção de preços, permitindo-lhes adquirir ações de boas empresas por uma fração do custo, assim como ele comprou fatias da Amazon e da Apple em 2009.

O saldo da análise separa rigidamente o valor para a sociedade do valor financeiro. Enquanto aconselha investidores a operarem vendidos no ecossistema de IA do ponto de vista acionário, Galloway reconhece o imenso ganho para o consumidor final. Ironicamente, a aposta mais segura para a geração de riqueza corporativa no curto prazo, segundo ele, não está nos chips ou nos data centers, mas nos medicamentos da classe GLP-1, que teriam um impacto mais direto na vida das pessoas e na criação de valor sustentável.

Fonte · Brazil Valley | Podcast