O atual volume de capital alocado em infraestrutura de inteligência artificial ultrapassou a marca crítica de 2% a 3% do PIB americano. Historicamente, essa proporção antecede colapsos sistêmicos em mercados de tecnologia. A premissa de que a utilidade de uma inovação se traduz automaticamente em valor duradouro para um grupo restrito de acionistas ignora o histórico do capitalismo. Scott Galloway projeta que a IA caminha para um ciclo de comoditização acelerada, no qual os benefícios sociais crescem, mas as margens corporativas despencam. A expectativa de retornos infinitos desafia a gravidade financeira, ignorando que correções de 40% a 97% são a regra na formação de novos paradigmas tecnológicos.

A ilusão do valor capturado

A história da infraestrutura é um cemitério de investidores pioneiros que financiaram bens públicos sob a ilusão de monopólios privados. O ciclo das ferrovias no século XIX e a eletrificação no século XX exigiram aportes massivos que reconfiguraram a economia, mas destruíram o patrimônio de quem assinou os primeiros cheques. O mesmo padrão de hiperinvestimento foi documentado na bolha das pontocom, quando a Amazon viu suas ações derreterem 97% entre 1999 e 2001, antes de encontrar sustentabilidade na computação em nuvem.

A inteligência artificial atual se assemelha à dinâmica da aviação a jato ou da invenção dos computadores pessoais na década de 1980. Foram inovações que alteraram a produtividade humana, mas cujos mercados sofreram com a fragmentação. Se o desenvolvimento de modelos de linguagem seguir a trajetória das vacinas — essenciais, mas com margens espremidas —, a atual tese das gigantes de tecnologia perderá sustentação. A Meta provou essa volatilidade ao cair 72% em 2022 durante seu pivô para o metaverso.

O agravante contemporâneo é a geopolítica. A entrada de modelos de IA chineses, distribuídos a custos marginais próximos a zero, tem o potencial de destruir o prêmio de precificação ocidental. Uma guerra de comoditização liderada por Pequim não apenas baratearia o acesso à ferramenta, mas funcionaria como catalisador para implodir as avaliações do Vale do Silício.

A demografia da correção financeira

O pânico em torno de uma recessão ofusca a função higiênica que as contrações exercem sobre a alocação de capital. Para a demografia com menos de 35 anos, uma correção severa não é tragédia, mas janela de oportunidade. A atual hipervalorização cria uma barreira intransponível para novos investidores, concentrando a riqueza nas mãos de fundos de venture capital que entraram nos ciclos de liquidez passados.

O retorno à racionalidade exige estratégias que o mercado frequentemente rejeita. A matemática dos juros compostos, capaz de transformar US$ 100 mil em US$ 1 milhão, depende de pontos de entrada razoáveis. Quando os múltiplos de valuation estão distorcidos pela euforia da IA, o risco de perda permanente de capital supera a promessa de crescimento exponencial.

A resposta institucional a esse cenário de saturação é a diversificação em direção a praças descontadas. A realocação de capital para a Europa e América Latina reflete uma busca por fundamentos tradicionais e proteção contra o risco de concentração nos Estados Unidos. O Brasil, penalizado por juros altos, passa a oferecer um prêmio de risco atraente quando o epicentro tecnológico global ameaça ruir.

A tese de Galloway expõe a dissonância cognitiva do atual momento: a crença de que a inteligência artificial será a primeira revolução imune às leis da gravidade econômica. O colapso projetado não significa o fim da utilidade da tecnologia, mas o encerramento de sua exuberância irracional. Resta saber se o Vale do Silício conseguirá consolidar modelos de captura de valor antes que a comoditização chinesa reduza seus balanços à realidade histórica.

Fonte · The Frontier | Podcast