O Departamento de Defesa dos Estados Unidos transformou a inteligência artificial de um experimento logístico falho em um motor central de sua infraestrutura operacional. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | AI em 20 de abril de 2026, a jornalista Katrina Manson detalha a trajetória do Project Maven, iniciativa militar iniciada em 2017 que pavimentou a entrada de algoritmos no campo de batalha. O que começou como uma tentativa rudimentar de aplicar visão computacional em imagens de drones evoluiu para o uso de grandes modelos de linguagem capazes de processar milhares de alvos potenciais por dia. A transição expõe o amadurecimento técnico do Pentágono e a reconfiguração das relações de poder entre o Vale do Silício e a máquina de guerra americana.

A evolução da precisão algorítmica

Nos primeiros anos, a adoção do Project Maven enfrentou severa resistência interna. Manson relata que, entre o final de 2017 e 2018, operadores na Somália chegaram a desligar o sistema devido à imprecisão dos algoritmos, que geravam dezenas de falsos positivos ao analisar quadros de vídeo. O ponto de virada ocorreu em combates no Afeganistão, quando a inteligência artificial conseguiu identificar fuzileiros navais americanos através da fumaça com mais rapidez que o olho humano, mitigando riscos de fogo amigo.

A visão original do coronel Drew Cukor, chefe operacional do projeto, sempre contemplou o uso da tecnologia para a identificação de alvos, contrariando a premissa inicial de que o software serviria apenas para fins não ofensivos. Hoje, a escala da operação é substancialmente maior. O Comando Central dos EUA (CENTCOM) utiliza o Maven Smart System, desenvolvido com auxílio da Palantir, integrando mais de 150 fontes de dados para fornecer uma exibição digital do campo de batalha.

A infraestrutura atual incorpora o Claude, modelo da Anthropic autorizado a operar em redes classificadas. Segundo um oficial da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial (NGA) citado por Manson, o sistema processou mil alvos nas primeiras 24 horas de operações americanas no Irã, utilizando a IA para acelerar processos administrativos de engajamento. A capacidade teórica reportada é de atingir até 5.000 alvos diários sob supervisão humana.

A diluição das fronteiras comerciais

A expansão do arsenal autônomo gerou um embate direto sobre o controle de uso da tecnologia comercial. A Anthropic tentou estabelecer linhas vermelhas com o Pentágono, exigindo a proibição de vigilância doméstica em massa e o veto a sistemas de armas totalmente autônomos sem supervisão humana. O atrito culminou em um impasse, evidenciando a dificuldade do governo em aceitar que fornecedores privados ditem as políticas de engajamento militar em sistemas classificados.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a hesitação inicial de grandes empresas de tecnologia em colaborar com contratos de defesa na década passada vem sendo sistematicamente substituída por uma aproximação agressiva em busca de licitações governamentais. No cenário atual narrado no vídeo, essa mudança de postura do setor privado é explícita.

O Pentágono lançou recentemente um desafio de US$ 100 milhões para criar tecnologia de enxame de drones autônomos controlados por voz. Manson aponta que empresas como SpaceX, xAI, Palantir e OpenAI figuram entre as competidoras. A iniciativa integra um esforço mais amplo, alinhado ao programa Replicator, que busca desenvolver drones baratos e descartáveis para cenários de dissuasão no Indo-Pacífico. Segundo a testadora militar Jane Pinelis, citada no vídeo, a adoção dessas redes exige que os militares se tornem "mais receptivos ao risco", assumindo as falhas inerentes e a degradação algorítmica de tecnologias de caixa preta.

A trajetória descrita por Manson evidencia que a inteligência artificial deixou de ser uma ferramenta periférica de suporte para se tornar a espinha dorsal da letalidade americana. A dependência de modelos comerciais em redes classificadas força uma reavaliação sobre quem detém a governança sobre ferramentas de conflito armado. À medida que a velocidade do processamento de dados supera a capacidade de deliberação humana, o desafio central deixa de ser apenas a precisão do software e passa a ser o controle arquitetônico sobre sistemas projetados para escalar a guerra.

Fonte · Brazil Valley | AI