O investidor Ray Dalio argumenta que a inteligência artificial pode "devorar a si mesma" ao falhar em produzir lucros adequados para justificar os investimentos atuais. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Finance em 3 de março de 2026, ele conecta essa incerteza tecnológica a um cenário macroeconômico de deterioração fiscal nos Estados Unidos e tensões geopolíticas globais. A tese central é que o mercado confunde o sucesso inevitável de uma tecnologia com a sobrevivência das empresas que a desenvolvem, um risco amplificado por um ciclo de dívida que restringe a liquidez.

O esgotamento fiscal e a fuga para o ouro

Dalio aponta que o governo americano opera com um déficit de 40% em relação aos seus gastos — projetando gastar US$ 7 trilhões enquanto arrecada cerca de US$ 5 trilhões. Metade do atual déficit de US$ 2 trilhões é consumida por pagamentos de juros, agravado pela necessidade de rolar US$ 9 trilhões em dívidas maduras. Para o investidor, reduzir o déficit para 3% do PIB seria a métrica necessária para estabilizar o sistema. Diante da inflação e do risco geopolítico de conflitos com credores estrangeiros, bancos centrais estão acumulando ouro em vez de títulos.

Dalio argumenta que o ouro é o único ativo histórico que funciona como dinheiro sem depender da promessa de terceiros, sugerindo uma alocação defensiva de 5% a 15% em portfólios. Em contrapartida, ele rejeita o Bitcoin como reserva soberana viável neste estágio. O investidor afirma que a criptomoeda não possui privacidade nas transações, é altamente correlacionada a ações de tecnologia e opera em um mercado pequeno e controlável, atributos que afastam o interesse de governos e bancos centrais.

Para contexto, a BrazilValley aponta que a preferência institucional por ativos tangíveis em momentos de estresse fiscal profundo ecoa ciclos inflacionários anteriores, nos quais a liquidez migra historicamente de promessas de crédito estatal para reservas físicas de valor incondicional.

O choque de modelos na inteligência artificial

Ao analisar o entusiasmo do mercado com a IA, Dalio traça uma distinção rigorosa: as tecnologias sobreviverão, mas muitas das empresas atuais não. Ele alerta que a IA está "comendo tudo", mas pode não gerar lucros adequados para sustentar o capital investido. O investidor introduz uma variável geopolítica ao problema comercial da tecnologia, contrastando o ecossistema dos Estados Unidos com a estratégia da China.

Enquanto o mercado americano depende de um sistema estrito baseado em lucros para remunerar o capital investido, a China pode tratar a inteligência artificial como infraestrutura pública, semelhante à eletricidade. Dalio sugere que o país asiático poderia oferecer a tecnologia de forma gratuita e em código aberto para maximizar a produtividade nacional, relegando o lucro direto das empresas a um plano secundário. Isso criaria um dilema competitivo global, forçando empresas ocidentais a competir com modelos de fronteira subsidiados ou abertos, dificultando o retorno financeiro exigido por investidores privados.

O diagnóstico de Dalio posiciona o momento atual como o estágio cinco de um ciclo histórico, marcado por abismos de riqueza, diferenças políticas irreconciliáveis e o enfraquecimento das contas públicas. O que permanece em aberto é como o mercado ocidental precificará a inovação de fronteira se a inteligência artificial seguir o caminho de infraestrutura subsidiada internacionalmente. O capital alocado hoje na expectativa de construir monopólios de software pode descobrir que financiou, na verdade, a fundação de um utilitário global de margens severamente comprimidas.

Fonte · Brazil Valley | Finance