A inteligência artificial generativa opera como um mecanismo de regressão à média: ao processar o volume total de dados disponíveis, suas respostas tendem ao padrão, eliminando a diferenciação necessária para a inovação. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Business em 1 de maio de 2026, o professor e autor Scott Galloway argumenta que essa característica torna a tecnologia útil para tarefas operacionais, mas ineficaz como núcleo criativo de novos negócios. Paralelamente, essa mesma ausência de atrito tem impulsionado o uso de IA como substituta para interações humanas, criando uma dependência que isola usuários jovens da complexidade inerente aos relacionamentos reais.
O limite da ideação sintética
Galloway define a inteligência artificial atual como uma ferramenta capaz de estruturar planos, mas desprovida do elemento de risco que justifica a criação de uma empresa. Ao ser consultada para gerar ideias de negócios, a tecnologia entrega respostas descritas pelo autor como seguras, higienizadas e padronizadas (classificadas por ele como "PG-13"). A utilidade real dos modelos de linguagem na fase de fundação concentra-se na estimativa de mercado endereçável total (TAM), definição de estrutura corporativa e modelagem financeira, atuando como um estagiário de alta capacidade de leitura, mas sem autonomia criativa.
O risco de delegar a operação central à IA foi ilustrado por Galloway através de um caso reportado pelo The New York Times: um fundador utilizou ferramentas como o ChatGPT para construir uma empresa com projeção de quase US$ 2 bilhões em vendas e apenas dois funcionários. No entanto, o chatbot começou a alucinar produtos e gerar anúncios enganosos, resultando em escrutínio regulatório. A lição extraída é que a fundação de um negócio exige assumir riscos e buscar diferenciação, características incompatíveis com um software desenhado para prever padrões com base no consenso histórico.
A ascensão da companhia algorítmica
Se no ambiente corporativo a IA falha por ser excessivamente segura, no âmbito social essa mesma previsibilidade tornou-se um produto de alto engajamento. Galloway cita que, entre 2022 e meados de 2025, o número de aplicativos de companhia baseados em IA cresceu 700%. Dados do American Institute of Boys and Men mencionados no vídeo indicam que cerca de três em cada quatro adolescentes nos Estados Unidos já utilizaram uma IA de companhia, com um em cada cinco afirmando passar tanto ou mais tempo com essas ferramentas do que com amigos humanos. O tempo médio de sessão em plataformas como o Character AI chega a 75 minutos, contrastando com os 15 minutos de consultas tradicionais.
O autor relata sua própria experiência com a tecnologia ao licenciar um "retrato" para o Google, um avatar treinado com seus livros e publicações para responder a perguntas de jovens em busca de conselhos. Em apenas 12 horas, Galloway solicitou a remoção do bot, desconfortável com a ideia de participar do isolamento de jovens que deveriam buscar mentoria em relações humanas. Ele prevê que a regulação desse setor levará cerca de 20 anos, traçando um paralelo com o tempo necessário para regular o tabaco (30 anos) e os opiáceos (20 anos). Para contexto, a BrazilValley aponta que a transição de ferramentas de software corporativo para redes de relacionamento sintético altera fundamentalmente a tese de investimento no setor, deslocando o foco de ganhos de produtividade para a monetização da atenção e do isolamento, dinâmica não abordada diretamente pelo falante.
No limite, a análise de Galloway sugere que a principal falha da inteligência artificial é a sua extrema conveniência. Relações humanas, mentorias e a construção de empresas compartilham a necessidade de atrito, erro e vulnerabilidade. Ao oferecer respostas invariavelmente polidas e concordantes, a tecnologia mitiga o desconforto a curto prazo, mas atrofia a capacidade dos usuários de lidar com a complexidade que define tanto o sucesso comercial quanto a maturidade social.
Fonte · Brazil Valley | Business




