A tecnologia mais estratégica do mundo é fabricada por menos de uma dezena de empresas, em poucos países, com equipamentos produzidos por uma única firma holandesa. Essa concentração não é acidente — é o resultado de décadas de especialização radical que gerou eficiência sem precedente e vulnerabilidade sem paralelo. Chris Miller, professor da Fletcher School na Tufts University e autor de Chip War: The Fight for the World's Most Critical Technology, oferece o mapa mais completo disponível desse território — e o que ele revela é incômodo para qualquer potência que dependa de silício para projetar poder.

A Física da Dominância

A lógica por trás da indústria de chips é implacável: cada geração de transistores precisa ser menor, mais rápida e mais eficiente energeticamente do que a anterior. A Lei de Moore — a observação empírica de Gordon Moore, cofundador da Intel, de que o número de transistores num chip dobra aproximadamente a cada dois anos — funcionou como contrato tácito da indústria por décadas. Na era da IA, esse contrato está sendo renegociado sob pressão extrema: os modelos de linguagem de grande escala exigem paralelismo massivo, não apenas velocidade de clock, o que desloca o centro de gravidade da computação das CPUs para as GPUs e aceleradores especializados.

O processo de fabricação de chips de ponta envolve plantas que custam mais de US$ 20 bilhões cada — as chamadas fabs — e máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV) que só a ASML, empresa holandesa sediada em Eindhoven, sabe construir. Cada equipamento EUV contém mais de 100 mil peças e leva anos para ser entregue. Não existe substituto em escala comercial. Isso significa que qualquer país ou empresa que queira fabricar chips de última geração — abaixo de 5 nanômetros — precisa da ASML. E a ASML precisa de um ecossistema de fornecedores que se estende por Alemanha, Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos.

A divisão do trabalho que emergiu desde os anos 1980 — quando Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) popularizou o modelo de foundry pura, separando design de fabricação — criou eficiência extraordinária. Empresas como Apple, Nvidia e Qualcomm projetam chips sem possuir uma única fábrica. A TSMC fabrica sem projetar. Esse modelo permitiu que o Vale do Silício se tornasse o centro de design global enquanto Taiwan concentrava a manufatura de ponta.

Escassez, Geopolítica e o Custo da Concentração

A pandemia de COVID-19 expôs a fragilidade estrutural desse arranjo de forma brutal. A escassez de chips de 2021-2022 paralisou linhas de montagem de automóveis em Detroit, atrasou lançamentos de consoles e elevou preços de eletrônicos globalmente — tudo isso porque chips relativamente simples, fabricados em fábricas antigas e geograficamente concentradas, simplesmente não estavam disponíveis em quantidade suficiente. O episódio revelou que a eficiência da cadeia global de suprimentos foi construída sobre a hipótese implícita de que a geopolítica não interferiria no comércio.

Essa hipótese não sobreviveu à rivalidade EUA-China. As restrições de exportação impostas pelo governo Biden em outubro de 2022 — que bloquearam o acesso da China a chips avançados e aos equipamentos necessários para fabricá-los — representaram a intervenção mais agressiva dos Estados Unidos no comércio de semicondutores desde a Guerra Fria. O CHIPS and Science Act, assinado em agosto de 2022, destinou US$ 52 bilhões para incentivar a fabricação doméstica, numa admissão tácita de que o mercado, por si só, não produziria a resiliência geopolítica necessária.

O problema de energia mencionado por Miller no capítulo final da entrevista é o próximo gargalo: os data centers que alimentam modelos de IA de grande escala já consomem quantidades de eletricidade comparáveis às de cidades médias, e a demanda cresce mais rápido do que a infraestrutura de geração e transmissão. A corrida pela IA não é apenas uma corrida por chips — é uma corrida por energia, água para resfriamento e terreno para construir.

O que Miller documenta é uma indústria que chegou ao limite de sua própria lógica de globalização. A especialização que tornou os chips baratos e poderosos também os tornou geopoliticamente explosivos. A questão não resolvida — e que nenhum governo ou empresa respondeu satisfatoriamente — é se é possível reconstruir redundância sem destruir a eficiência que fez a indústria funcionar.

Fonte · The Frontier | Technology