A ilusão contemporânea é tratar o código como o principal motor do progresso, quando a verdadeira fronteira tecnológica repousa estritamente sobre a manufatura de hardware. O autor e pesquisador Chris Miller argumenta que o desenvolvimento de semicondutores é o processo industrial mais complexo já realizado. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Technology em 20 de fevereiro de 2026, ele aponta que a escrita de software é a parte mais simples da equação tecnológica atual. A viabilidade da inteligência artificial, da computação em nuvem e da hiperconectividade depende da capacidade contínua de miniaturizar transistores a uma escala quase atômica, um desafio físico e financeiro que centralizou o poder global em um punhado de corporações.

A economia da precisão extrema

A manutenção da Lei de Moore — a previsão empírica de que a capacidade computacional dobra a cada dois anos — deixou de ser uma questão de física para se tornar uma lei puramente econômica. Miller afirma que o custo brutal de pesquisa e infraestrutura forçou um afunilamento drástico no setor. Uma única instalação de ponta para fabricação de chips exige hoje um investimento na ordem de US$ 20 bilhões. Esse patamar de capital consolidou o domínio da Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), que, segundo o autor, produz cerca de 90% dos processadores avançados do mundo ao focar exclusivamente na manufatura, sem desenhar seus próprios componentes.

A dependência global da TSMC é espelhada pelo monopólio da holandesa ASML na ponta dos equipamentos industriais. Miller detalha que a ASML é a única fornecedora de máquinas de litografia de ultravioleta extremo, vendidas por cerca de US$ 350 milhões cada. O equipamento utiliza luz com comprimento de onda de 13,5 nanômetros, gerada por um laser que atinge gotas de estanho no vácuo, criando um plasma 40 vezes mais quente que a superfície do Sol. Para contexto, a BrazilValley aponta que a consolidação extrema dessa cadeia de suprimentos contrasta com a natureza descentralizada do desenvolvimento de software inicial, criando pontos de estrangulamento únicos na economia global que não encontram paralelos em outras indústrias modernas.

O gargalo do hardware na corrida pela IA

O choque de demanda provocado pelo lançamento do ChatGPT no final de 2022 evidenciou que a infraestrutura de inteligência artificial é fundamentalmente dependente de silício de altíssima performance. O treinamento de modelos de fronteira exige dezenas de milhares de chips avançados da NVIDIA operando por meses ininterruptos. No entanto, Miller observa que o custo de implementação diária da IA ainda é proibitivo. Isso está forçando big techs como Google, Microsoft e Meta, além de startups emergentes, a desenharem seus próprios chips otimizados para cargas de trabalho específicas, buscando contornar a ineficiência energética e o custo financeiro dos processadores de uso geral.

Essa concentração tecnológica transformou os semicondutores no principal vetor da política externa norte-americana. O pesquisador lembra que a China gasta mais importando chips do que petróleo. Em resposta à ascensão tecnológica chinesa, os Estados Unidos implementaram sanções em 2022 para bloquear a exportação de chips de IA de ponta para o país asiático. O objetivo, segundo Miller, é forçar as empresas chinesas a utilizarem hardwares menos eficientes, aumentando o tempo e o custo de treinamento de seus modelos para garantir que os EUA ditem as regras da inteligência artificial.

A fundação da próxima década de inovação não será definida por saltos puramente algorítmicos, mas pela capacidade industrial de sustentar o ritmo da miniaturização. Enquanto nações injetam bilhões em subsídios, como os US$ 50 bilhões do CHIPS Act americano, a realidade física da manufatura de precisão impõe limites que o capital sozinho não resolve. A inteligência artificial pode ser o produto mais cobiçado do mercado, mas o verdadeiro poder de veto sobre o futuro tecnológico continua ancorado em cadeias de suprimento altamente localizadas no Leste Asiático e na Europa.

Fonte · Brazil Valley | Technology