Stewart Brand passou seis décadas ajudando a construir o imaginário tecnológico americano — e seu novo livro é, em certa medida, um acerto de contas com esse legado. Maintenance: Of Everything, Part One não é uma recusa da tecnologia, mas uma crítica estrutural à lógica que a governa: a obsessão com o novo em detrimento do que já funciona e precisa ser preservado.

O arquiteto do mito e sua revisão tardia

Brand não é um crítico externo. Ele foi o organizador do Trips Festival com Ken Kesey em 1966, esteve presente na "mother of all demos" de Douglas Engelbart em 1968 — a apresentação que introduziu o mouse, o hipertexto e a videoconferência ao mundo — e criou o Whole Earth Catalog, que Steve Jobs descreveu como "uma das bíblias da minha geração" e "o Google em formato impresso, 35 anos antes do Google". Poucos personagens têm credencial mais sólida para diagnosticar onde a indústria errou.

O argumento central de Brand é que a cultura tecnológica fetichiza a disrupção e trata a manutenção como trabalho invisível, mal remunerado e intelectualmente menor. Isso não é apenas uma questão estética — é uma falha sistêmica. Infraestruturas envelhecem, softwares acumulam dívida técnica, e o custo de negligenciar o que já existe eventualmente supera o custo de construir o novo. A metáfora mais concreta que Brand oferece é a própria vida: ele passa 40 anos num rebocador, o que implica manutenção contínua como condição de habitabilidade.

Essa posição contrasta diretamente com a geração que Brand influenciou. Onde Jobs vendia "think different" e Zuckerberg codificou "move fast and break things", Brand propõe uma ética do cuidado — mais próxima do que Ivan Illich chamava de "ferramentas para a convivialidade" do que do Vale do Silício contemporâneo.

Manutenção, IA e o direito ao reparo

A conversa com Ezra Klein cobre dois territórios que tornam o argumento de Brand especialmente atual. O primeiro é a inteligência artificial: Brand sugere que a IA vai revelar algo sobre a natureza humana, não apenas sobre a capacidade computacional. A pergunta implícita é se sistemas de IA serão projetados para durar e ser mantidos — ou se seguirão o padrão da indústria de software, onde versões obsoletas são abandonadas sem cerimônia e usuários ficam reféns de ciclos de atualização forçada.

O segundo território é o direito ao reparo, exemplificado pelo caso da John Deere. A fabricante de tratores travou batalha legal para impedir que agricultores consertassem seus próprios equipamentos — argumentando que o software embarcado era propriedade intelectual da empresa. O episódio sintetiza a tensão que Brand articula: quando a propriedade de um objeto não implica o direito de mantê-lo, a relação entre pessoa e ferramenta se degrada. O movimento pelo direito ao reparo, que ganhou força legislativa em vários estados americanos entre 2021 e 2024, é a resposta política mais direta a essa lógica.

Esses dois casos — IA e John Deere — não são anedotas. São sintomas de uma arquitetura econômica que monetiza a dependência e desincentiva a autonomia do usuário. Brand, que ajudou a imaginar a internet como ferramenta de emancipação individual, agora observa uma indústria que frequentemente produz o oposto.

O que fica sem resposta é se o argumento de Brand tem tração política real. A manutenção é difícil de vender — eleitoralmente, narrativamente, financeiramente. Venture capital não financia conservação. A questão não é se Brand está certo, mas se a indústria que ele ajudou a criar tem estrutura de incentivos capaz de ouvir.

Fonte · The Frontier | Society