O governo de Tóquio iniciou a execução do Tokyo Resilience Project, um plano de infraestrutura de US$ 109 bilhões (17 trilhões de ienes) projetado para blindar a metrópole contra desastres naturais pelo próximo século. Lançado em dezembro de 2022 com um horizonte de 18 anos, o projeto visa proteger uma área que concentra um quarto da população do Japão e mais de 20% do PIB do país. Em vídeo publicado no canal Brazil Valley | Infrastructure em 18 de dezembro de 2024, a iniciativa é detalhada como uma defesa contra cinco ameaças principais: terremotos, inundações, erupções vulcânicas, tufões e surtos de doenças. A estratégia abandona o modelo focado puramente em evacuação para tentar garantir que a cidade continue operando mesmo sob estresse severo.
A contenção hídrica e a redundância de sistemas
Um quinto da região central de Tóquio, o equivalente a 124 quilômetros quadrados, está localizado abaixo do nível do mar. Para mitigar o risco de inundações agravadas por tufões, o projeto prevê a elevação dos muros de contenção marítima, projetados para suportar um aumento de 60 centímetros no nível do mar até 2100. O sistema subterrâneo existente — que já conta com cisternas a 50 metros de profundidade capazes de bombear 200 toneladas de água por segundo — terá sua capacidade dobrada. A expansão inclui a escavação de um novo túnel de 5,4 quilômetros de extensão e 12,4 metros de largura, utilizando uma máquina de perfuração de 2.800 toneladas, com o objetivo final de processar até 100 milímetros de chuva por hora.
Além da infraestrutura física contra inundações, o plano reestrutura as redes de energia e telecomunicações. A meta é estabelecer, até 2040, um grid imune a apagões e quedas de conectividade, sustentado pelo reforço de cabos submarinos, novas capacidades de satélite e armazenamento em nuvem dedicado às empresas locais. Para mitigar potenciais surtos de doenças, a cidade está adicionando novos parques e rotas de ciclismo para reduzir a dependência do transporte público adensado.
Para contexto, a BrazilValley aponta que a escala de adaptação climática e sísmica de Tóquio contrasta com a abordagem da maioria das metrópoles globais, que historicamente priorizaram a recuperação pós-desastre em vez da fortificação preventiva de sua matriz estrutural profunda.
Mitigação sísmica e reconfiguração urbana
O Japão absorve 18% de todos os terremotos do mundo, e a preparação sísmica dita a engenharia civil da capital. O monitoramento contínuo é feito pelo sistema MOWLAS, que utiliza uma rede de 2.000 sismógrafos espalhados pelo país e pelo fundo do oceano. Em institutos de pesquisa como o NIED, máquinas de fricção de rochas de 200 toneladas simulam a mecânica das placas tectônicas para aprimorar a previsão de tremores.
A aplicação prática dessa pesquisa é visível no Mori JP Tower, um arranha-céu concluído em 2023. O edifício utiliza amortecedores a óleo em sua estrutura e abriga, cinco andares abaixo do solo, geradores a diesel montados sobre molas de isolamento, além de suprimentos para sustentar 3.600 pessoas por três dias. O Tokyo Resilience Project visa estender esse nível de segurança para o restante da cidade. A meta é que 100% das habitações de Tóquio sejam capazes de suportar um terremoto de magnitude 7, eliminando a necessidade de evacuação imediata dos moradores.
O plano também endereça os efeitos secundários dos tremores, como os incêndios que devastaram a cidade após o terremoto de Kanto em 1923. Cerca de 86 quilômetros quadrados de bairros com construções de madeira antigas estão sendo reurbanizados com parques e edifícios mais altos que atuam como barreiras contra o fogo. Simultaneamente, a fiação aérea ao longo de mais de 1.000 quilômetros de vias está sendo transferida para o subsolo, prevenindo curtos-circuitos e desobstruindo o acesso para veículos de emergência, enquanto mais de 400 pontes passam por retrofits estruturais.
O Tokyo Resilience Project codifica a sobrevivência urbana como uma questão de engenharia de base. Ao investir centenas de bilhões para manter a cidade funcional durante eventos extremos, Tóquio tenta dissociar a ocorrência de desastres naturais do colapso econômico e social. O sucesso ou fracasso dessa empreitada de 18 anos testará os limites práticos de blindar uma megacidade contra a própria geografia.
Fonte · Brazil Valley | Infrastructure




