Ao cruzar as portas da 1-54 Contemporary African Art Fair, instalada no icônico Starrett-Lehigh Building, em Manhattan, o visitante é rapidamente arrebatado pela sensação de que a arte ainda guarda o poder da surpresa tátil. Em meio a uma temporada de feiras que muitas vezes privilegia o volume e a transação financeira, a 1-54, fundada por Touria El Glaoui em 2013, mantém uma curadoria que respira, convidando a uma observação mais lenta. Mesmo com uma presença mais contida, contando com 20 expositores nesta edição, o evento se afirma como um refúgio para quem busca a vitalidade material que define parte da produção contemporânea africana e de sua diáspora.
A materialidade como narrativa
A experiência da feira é pautada por trabalhos que desafiam a bidimensionalidade tradicional. O estande da galeria brasileira Aura, por exemplo, traz a obra de Rommulo Vieira Conceição, que utiliza PVC, resina e pintura automotiva para criar uma topografia ondulante e vibrante. Segundo o diretor da galeria, Edoardo Biancheri, o artista busca provocar uma reflexão sobre a influência do movimento de Arte Concreta brasileiro nas Américas. A obra de Conceição não é apenas uma pintura, mas uma construção de parede que carrega lições históricas, transformando o espaço físico em um campo onde a abstração geométrica ganha um novo e inesperado fôlego.
Diálogos entre o orgânico e o industrial
Outros artistas presentes na feira exploram a tensão entre o espécime taxonômico e a joia cultural. Kendra Frorup, com sua obra “A Light Sense”, transforma a representação da fruta conhecida nas Bahamas como sugar apple em um objeto de contemplação complexo, utilizando impressões, vidro colorido e arame. Em um registro distinto, Eymric Moderne, da Martinica, utiliza fragmentos de vidro sobre folha de ouro para fazer com que pássaros locais saltem de uma vegetação cromática, confundindo a linha entre a representação figurativa e a abstração pura. A obra de Marcel Gotène, apresentada pela Loeve and Co, reforça esse diálogo ao fundir formas animais e vegetais em um emaranhado que nos lembra da nossa interdependência estética.
A potência do olhar subjetivo
O trabalho de Sophia Bounou, na Blond Contemporary, oferece uma incursão quase subterrânea, onde máscaras pré-século XX se contorcem em paisagens alienígenas, forçando o observador a questionar a própria percepção do rosto humano. Já a artista Candice Tavares, com seu alinhamento ao gênero do Black Romantic, idealiza figuras que transbordam cor e expectativa, como na obra “Inside”. Essas peças, longe de serem apenas objetos de decoração, funcionam como espelhos que exigem que nos vejamos sob novos ângulos, a poucos passos do fantástico e do onírico.
O mercado em compasso de espera
Touria El Glaoui reconhece que a energia da edição nova-iorquina, comparada à de Marrakesh, reflete um momento de cautela no mercado de arte global. O encolhimento da feira, de 28 expositores em 2025 para 20 neste ano, é um sintoma claro de um ambiente desencorajado. No entanto, é justamente nessa escala menor que a 1-54 encontra sua força: a capacidade de oferecer obras que se estendem para encontrar o espectador, independentemente do ruído financeiro que ecoa lá fora.
Se a feira é um termômetro, o que resta é a dúvida sobre como a arte continuará a mediar nossas incertezas. A vitalidade presente nas texturas, nos vidros e nas cores de cada estande sugere que, talvez, a solução para o marasmo não seja a expansão, mas a precisão do encontro. Com reportagem de Brazil Valley
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