A substituição do serviço de Alta Velocidade (AVE) entre Madrid e Barcelona por voos exigiria uma operação aérea massiva, com a estimativa de 140 voos diários, sendo 70 em cada sentido. Essa projeção, apresentada pela Cambra de Comerç de Barcelona em um relatório recente, analisa a viabilidade de tal cenário, especialmente em caso de uma interrupção prolongada da linha ferroviária. O corredor Madrid-Barcelona é um dos mais movimentados da Europa, transportando cerca de nove milhões de passageiros anualmente, um número que se expande para 14 milhões ao considerar conexões com outros destinos.

Infraestrutura aérea sob pressão

A capacidade aérea atual entre as duas cidades é significativamente menor, com apenas 14 voos diários por sentido. Mesmo em períodos de alta demanda, como o histórico "ponte aérea" da Iberia, que chegou a operar 45 voos diários, a capacidade ainda estaria muito aquém do necessário. A Cambra de Comerç destaca que as companhias aéreas enfrentariam obstáculos consideráveis para absorver o volume de passageiros do AVE. Isso inclui a necessidade de investimentos substanciais em frotas de aeronaves e pessoal, além das limitações físicas e operacionais dos aeroportos de Madrid-Barajas e Barcelona-El Prat. A escassez de aeronaves disponíveis, tripulações e a restrição de horários de pouso e decolagem (slots) seriam fatores críticos, exacerbados pela concentração da demanda em horários de pico.

Mudanças na mobilidade e tendências

O relatório também examina as alterações na mobilidade observadas após incidentes que afetaram o serviço ferroviário. No primeiro semestre de 2026, o tráfego aéreo entre Madrid e Barcelona registrou um aumento de 16,3% em comparação com o mesmo período do ano anterior, representando mais de 84.000 passageiros adicionais. Simultaneamente, a linha de alta velocidade sofreu uma perda de aproximadamente um milhão de viajantes no mesmo intervalo. Embora essa queda no transporte ferroviário não se traduza automaticamente em um transbordo direto para o aéreo, o aumento nos tempos de viagem e as interrupções no serviço do AVE podem ter contribuído para essa tendência, alterando as preferências dos passageiros.

Implicações para o transporte

A análise da Cambra de Comerç de Barcelona sugere que a dependência de uma única modalidade de transporte de alta capacidade, como o AVE, apresenta riscos significativos. A fragilidade da infraestrutura ferroviária, evidenciada por recentes incidentes, levanta questões sobre a resiliência do sistema de transporte. A capacidade limitada da infraestrutura aérea para absorver a demanda reprimida do trem em uma situação de emergência aponta para a necessidade de uma avaliação mais profunda da interconexão e da capacidade de resposta de ambos os modais. A concentração de passageiros em poucas horas do dia nos aeroportos também representa um gargalo logístico que precisaria ser gerenciado.

O que observar a seguir

Fica evidente que a substituição completa do AVE por voos, especialmente em cenários de contingência, é uma tarefa complexa e onerosa. A análise da Cambra de Comerç serve como um alerta para a necessidade de diversificação e fortalecimento de ambas as infraestruturas de transporte. A capacidade de resposta a falhas em um modal e a interdependência entre eles são pontos cruciais que merecem atenção contínua de planejadores e operadores. A evolução futura da demanda e das tecnologias de transporte também influenciará a viabilidade de tais substituições.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España