Quase metade dos viajantes LGBTQ+ na Espanha, precisamente 43%, admite que estaria disposto a ocultar partes de sua identidade para garantir tranquilidade ao visitar destinos de férias. Os dados, extraídos do mais recente estudo Travel Proud da Booking.com, revelam uma tensão persistente entre a liberdade de expressão e a segurança pessoal em um mercado que se vende como universalmente acolhedor.
Embora 57% dos entrevistados espanhóis afirmem viver abertamente sua identidade durante o turismo — um índice superior à média global de 31% —, a necessidade de autoproteção permanece como uma constante. A pesquisa, que ouviu 13.300 usuários em 19 países, demonstra que o custo da visibilidade, quando traduzido em risco, ainda é um fator determinante para a experiência de viagem de milhões de pessoas.
O custo invisível da segurança
A correlação entre a invisibilidade e a redução de experiências negativas é um dos pontos centrais da análise. Aqueles que optam por não visibilizar sua orientação sexual relatam menos incidentes, com 34% de relatos negativos, em comparação com 62% do conjunto geral da comunidade e 73% das pessoas trans.
Este cenário força viajantes a adotarem estratégias de mitigação de danos, como compartilhar a localização em tempo real, deletar aplicativos de relacionamento antes de cruzar fronteiras ou monitorar constantemente o ambiente antes de demonstrações de afeto. A prevalência dessas medidas indica que, para o viajante LGBTQ+, o planejamento de uma viagem envolve um cálculo de risco que vai muito além da logística básica de passagens e hospedagem.
Desafios para o turismo familiar
O impacto da exclusão também se manifesta de forma aguda para viajantes em família. Cerca de 27% dos pais LGBTQ+ temem que seus filhos recebam tratamento diferenciado, enquanto 20% relatam dificuldades com documentações que insistem em categorias tradicionais de pai e mãe. Essas barreiras burocráticas e sociais criam um ambiente de estresse adicional, transformando o ato de viajar em um exercício de gestão de expectativas negativas.
O setor de hospitalidade, por sua vez, começa a responder com sinais de inclusão, como o uso correto de pronomes e sinalização específica. Contudo, a disparidade entre a oferta turística e a realidade vivida pelo viajante sugere que as marcas ainda têm um longo caminho para garantir que a inclusão seja uma norma e não uma exceção pontual.
Implicações para o setor hoteleiro
Apesar dos desafios, 77% dos viajantes relataram ao menos uma experiência positiva no último ano, sugerindo que o treinamento de pessoal e a preparação do ambiente físico têm resultados práticos. A demanda por destinos que garantam segurança, exemplificada pelo aumento de 34% nas buscas por Madrid para o Orgulho 2026, mostra que o mercado responde positivamente quando a inclusão é priorizada.
A transição de um turismo que tolera a diversidade para um que a acolhe ativamente é o próximo desafio para grandes plataformas e redes hoteleiras. A capacidade de oferecer um ambiente seguro não é apenas um imperativo ético, mas um diferencial competitivo em um mercado cada vez mais consciente sobre os direitos de seus consumidores.
O futuro da mobilidade inclusiva
O que permanece incerto é se a indústria conseguirá acompanhar a crescente demanda por segurança, especialmente em regiões onde a legislação local ainda é hostil. A tendência de crescimento nas preocupações de viajantes trans, em particular, exige uma reformulação mais profunda nos protocolos de atendimento e infraestrutura.
A observação dos próximos ciclos de viagens indicará se a tecnologia e as políticas de hospitalidade serão capazes de reduzir a necessidade de "auto-ocultação". A questão central para o setor é como garantir que o direito de viajar não venha acompanhado pela necessidade de esconder quem se é.
O debate sobre a inclusão no turismo está longe de ser encerrado, com a tecnologia atuando tanto como ferramenta de monitoramento de risco quanto como ponte para destinos mais seguros. A evolução deste cenário dependerá da colaboração entre governos, plataformas de reservas e o próprio setor hoteleiro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





