A Inteligência Artificial (IA) se consolidou como um pilar estratégico para o crescimento das empresas, mas a capacidade dos CEOs em demonstrar seus retornos financeiros tangíveis ainda é um desafio. Segundo a pesquisa "2027 Gartner CEO Survey", realizada com 203 executivos seniores, 44% dos líderes globais relatam dificuldades em justificar o valor financeiro gerado pela IA em suas organizações. Essa lacuna, no entanto, não se traduz em uma retração nos investimentos em tecnologia. Pelo contrário, 62% dos CEOs priorizam o crescimento da receita e 75% planejam aumentar os aportes em tecnologia, sinalizando a percepção de que a IA e outras inovações são cruciais para a operação, a competitividade e a expansão dos negócios.
O Desafio da Mensuração e a Busca por Liberdade Estratégica
David Furlonger, Vice-Presidente Analista Emérito do Gartner, aponta que a simples adição de IA a processos existentes não resolverá o problema da geração de valor. A tecnologia, cada vez mais, é vista não apenas como uma ferramenta de otimização, mas como um motor de "liberdade estratégica". Essa liberdade se traduz na capacidade de uma empresa entrar em novos mercados, reformular ofertas de produtos e serviços, reconfigurar suas operações de forma ágil e responder a disrupções com mais rapidez que a concorrência. Para os CIOs, isso implica uma mudança de foco: da mera implementação da IA para a redefinição de como a empresa cria e entrega valor.
A tecnologia, de fato, tornou-se intrinsecamente ligada à estratégia corporativa. Oitenta por cento dos executivos entrevistados afirmaram que a tecnologia é, agora, a própria estratégia, com decisões tecnológicas no centro das discussões sobre crescimento, competitividade e direção futura das empresas. Essa centralidade se torna ainda mais crítica em um cenário de alta volatilidade. Os líderes preveem impactos significativos de disrupções econômicas (93%), conflitos globais (79%) e a industrialização da IA (77%) em seus objetivos estratégicos até 2027. Contudo, a prontidão para enfrentar essas volatilidades ainda é baixa, com apenas 24% se sentindo preparados para disrupções econômicas, 11% para conflitos e 20% para a IA industrializada.
Reformulando Modelos Operacionais para Acelerar Retornos
Para superar a dificuldade na demonstração de retornos e capturar plenamente o potencial da IA, os CEOs reconhecem a necessidade de ir além de melhorias incrementais de produtividade. Uma maioria expressiva, 63%, identifica a reformulação radical do modelo operacional como a principal medida estratégica para acelerar retornos financeiros tangíveis da IA. Outras estratégicas importantes incluem a implementação agressiva de agentes de IA como funcionários (52%) e a liberação ou realocação de capital por meio de reestruturações de negócios significativas (47%).
A lição extraída de transformações tecnológicas passadas, segundo Furlonger, é que o valor real é gerado quando as organizações se reestruturam em torno do novo recurso tecnológico, em vez de simplesmente integrá-lo aos processos já existentes. A IA, portanto, precisa ser incorporada de forma orgânica aos fluxos de trabalho, aos processos de tomada de decisão e à estratégia competitiva da empresa. Essa integração profunda é o que permitirá às organizações não apenas otimizar, mas verdadeiramente inovar e se adaptar.
Implicações para Liderança e Execução
Diante desse cenário, o Gartner oferece recomendações claras para os CIOs que buscam auxiliar seus CEOs a atingir metas estratégicas de crescimento impulsionadas pela IA. A primeira é a reformulação dos fluxos de trabalho em torno da inteligência, priorizando investimentos em IA que transformem fundamentalmente a maneira como o trabalho é feito, as decisões são tomadas e o valor é entregue, em vez de apenas acelerar tarefas existentes. Isso exige uma visão holística que transcende a mera automação.
Em segundo lugar, é crucial construir arquiteturas tecnológicas modulares e reduzir dependências rígidas. Essa flexibilidade permitirá que a organização mude de direção, troque de fornecedores e incorpore novas capacidades de forma mais ágil à medida que as condições de mercado evoluem. Finalmente, a mensuração de resultados deve focar em métricas financeiras e operacionais claras, como unit economics, velocidade na tomada de decisões, tempo de chegada ao mercado e impacto nos clientes e negócios. A governança da IA, do trabalho digital e a reformulação da força de trabalho devem ser vistas como uma transformação integrada, e não como iniciativas isoladas.
Perguntas em Aberto e o Futuro da IA nos Negócios
Apesar dos avanços e da crescente adoção da IA, persistem questões importantes sobre a velocidade e a profundidade com que as empresas conseguirão integrar essa tecnologia em seus modelos de negócio e demonstrar retornos financeiros concretos. A capacidade de adaptação e a disposição para reformular operações em larga escala serão determinantes para as empresas que desejam se destacar em um mercado cada vez mais impulsionado pela inteligência artificial.
O futuro exigirá líderes que não apenas compreendam o potencial técnico da IA, mas que também saibam traduzi-lo em valor estratégico e financeiro, repensando a própria essência de como os negócios são conduzidos. A jornada da IA, embora promissora, ainda reserva desafios significativos na sua tradução para o sucesso empresarial tangível.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside




