A MBRF, uma das gigantes do setor de proteínas, está movendo suas peças para transformar o colágeno de um ingrediente de nicho em um aditivo de massa na indústria alimentícia. Através da Gelprime, empresa na qual investe, a companhia iniciou a infusão da proteína em categorias de produtos inusitadas, como sucos, cafés, massas e sobremesas. O primeiro exemplo público é um suco de laranja desenvolvido em parceria com a marca Prats, que agora conta com 15 gramas de proteína por porção.

A movimentação é mais do que uma simples extensão de linha. Trata-se de uma tese estratégica para agregar valor a uma matéria-prima originada em seu próprio ecossistema — o colágeno é extraído de insumos bovinos — e criar um novo mercado. Para sustentar a ambição, a MBRF anunciou um investimento de R$ 500 milhões na Gelprime, com o objetivo de dobrar sua capacidade produtiva até 2030, segundo reportagem do Broadcast Agro.

Da proteína ao prato

A estratégia da MBRF é essencialmente uma jogada de B2B2C. A companhia não está apenas vendendo o ingrediente, mas oferecendo uma solução completa de pesquisa e desenvolvimento para que outras empresas de alimentos possam "proteinizar" seus portfólios. A chave para essa expansão, segundo os executivos, é a neutralidade sensorial do colágeno desenvolvido pela Gelprime, que permite sua adição sem alterar o sabor ou odor original dos produtos, seja um suco ou um pão.

O pano de fundo é uma demanda crescente por saudabilidade e densidade nutricional. O mercado brasileiro de suplementos, que já movimenta mais de R$ 7 bilhões, é um indicador, mas a MBRF mira um público mais amplo. A empresa aposta que a preocupação com a saúde e até mesmo o uso de medicamentos da classe GLP-1, que reduzem o apetite, levarão os consumidores a buscar mais proteína em porções menores de alimentos cotidianos. O mercado global de peptídeos de colágeno, avaliado em US$ 4,56 bilhões em 2020, deve alcançar US$ 7,67 bilhões em 2030.

Desafios e escala industrial

O investimento de R$ 500 milhões sinaliza que a MBRF está se movendo da fase de projetos piloto para a escala industrial. Os recursos são destinados principalmente à expansão da planta e equipamentos da Gelprime, preparando a infraestrutura para atender tanto a demanda de clientes externos quanto as necessidades da própria MBRF, que já utiliza o ingrediente em linhas como a Perdigão Meu Menu.

Os desafios, no entanto, são específicos para cada aplicação. Questões como custo, estabilidade da fórmula, concentração de proteína e condições de processamento industrial precisam ser resolvidas caso a caso. A empresa afirma que os ajustes fazem parte da operação de P&D e que o custo adicional não deve inviabilizar a adoção pelo consumidor final. Segundo um executivo, a iniciativa representa uma "quebra de paradigmas na indústria de alimentos".

O sucesso da empreitada não dependerá apenas da tecnologia da Gelprime, mas da capacidade da MBRF de convencer uma indústria tradicional a repensar a formulação de seus produtos. O suco com a Prats é o primeiro teste visível dessa tese. A verdadeira medida do êxito, contudo, será a capacidade de replicar o modelo em pães, massas e cafés, transformando o colágeno em um ingrediente tão comum quanto o açúcar ou a farinha.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times