Michael Burry, o investidor imortalizado no filme “A Grande Aposta” por prever a crise financeira de 2008, agora aponta para as adegas. Em uma publicação recente em seu Substack, Burry argumenta que vinhos finos são um “excelente diversificador” para portfólios de investimento, uma tese que vai além do tradicional.

A sua aposta é que rótulos de luxo podem servir como uma proteção tripla: contra a inevitável desvalorização do dólar, a fuga de moedas fiduciárias e, de forma mais original, contra os “cenários infernais” que podem ser criados por futuras iterações de inteligência artificial e computação quântica. A leitura é que, se novas tecnologias ameaçarem a integridade do sistema financeiro digital, o valor migrará para ativos reais e tangíveis.

A lógica do ativo real

A tese de Burry para os vinhos se apoia em uma dinâmica de oferta única. “Cada garrafa de vinho consumida em qualquer lugar da Terra encolhe o estoque daquele ativo exato para sempre”, escreveu. Ele chama isso de “destruição de oferta”, uma característica que destoa de outros colecionáveis como relógios, arte ou destilados. A demanda, por sua vez, é resiliente, ancorada nos ultra-ricos.

Este raciocínio se conecta à sua visão macroeconômica pessimista. Burry prevê um “colossal acidente de trem” para o dólar nos próximos cinco a dez anos, à medida que a conta da “irresponsabilidade fiscal” americana chegar. Ele aponta para a dívida nacional do país, que se aproxima de US$ 40 trilhões, e a correlação historicamente negativa entre o índice de vinhos finos Liv-ex 100 e o índice do dólar americano.

Timing e diversificação

Para Burry, um investidor de valor por natureza, o momento de entrada é agora. Ele observa que os preços dos vinhos finos caíram entre 25% e 30% desde o pico em outubro de 2022, criando uma janela de oportunidade. A análise histórica citada por ele sugere um retorno real líquido anual de 4,1% entre 1900 e 2012, mas Burry acredita que, comprando na baixa atual e com a potencial desvalorização do dólar, os retornos podem ser muito maiores.

Além da aposta direcional, o principal apelo é a diversificação. Segundo o investidor, vinhos finos europeus demonstraram correlação praticamente nula com o S&P 500 nos últimos 25 anos, tornando-os um diversificador “quase perfeito”. Ainda assim, ele adverte que a seleção é crucial, revelando ter analisado cerca de 700 vinhos este ano, mas adquirido apenas 40.

A tese de Burry é uma combinação de análise fundamentalista de um ativo de nicho com uma profunda desconfiança sobre o futuro financeiro e tecnológico. É uma aposta na escassez física em um mundo cada vez mais digital e abstrato, onde o valor pode, no fim, residir em algo que se pode tocar — e, eventualmente, degustar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider