Em um mercado saturado por inteligências artificiais focadas em gerar conteúdo novo, uma startup argentina trilha o caminho inverso: usar a tecnologia para capturar e preservar o que já existe. A Mila, que acaba de levantar uma rodada pre-seed de US$ 800 mil, desenvolveu um “biógrafo de IA” que utiliza o WhatsApp para entrevistar dezenas de pessoas e transformar suas memórias em narrativas compartilhadas.
A proposta, no entanto, não nasceu de uma análise de mercado, mas de uma profunda dor pessoal. O fundador, Ezequiel Fonseca Zas, perdeu a irmã e a sobrinha em um acidente em 2018. A necessidade de garantir que seu sobrinho, sobrevivente da tragédia, conhecesse a história da mãe deu origem a um esforço manual de mais de um ano para coletar relatos. A startup é a automação desse processo.
O algoritmo da saudade
O embrião da Mila foi um trabalho artesanal e exaustivo. Para reconstruir a história de sua irmã para o sobrinho Balthazar, que tinha 10 anos na época, Ezequiel Fonseca Zas passou 18 meses entrevistando mais de 60 pessoas espalhadas pelo mundo, perseguindo áudios e textos por WhatsApp. O resultado foi um livro de memória familiar com 140 anos de história. A experiência, descrita por ele como “longa, custosa e desgastante”, revelou uma necessidade universal: a de registrar histórias antes que se percam.
Foi dessa constatação que nasceu a Mila — nome de sua sobrinha, que em hebraico significa “palavra”. A plataforma funciona como uma entrevistadora conversacional. Ela envia perguntas personalizadas via WhatsApp a familiares, amigos ou colegas, gerando dezenas de conversas simultâneas. As pessoas respondem com textos, áudios e fotos, e a tecnologia consolida todo o material em uma narrativa coesa.
Da dor ao produto
O primeiro produto da Mila foi um livro impresso, mas a empresa já expande para formatos de vídeo e outros produtos digitais. Com preços que partem de US$ 19 pela versão digital, a plataforma encontrou um mercado que vai além do luto. Hoje, é usada para celebrar casamentos, aniversários e trajetórias profissionais, além de registrar a história de fundação de empresas. A startup já opera na Argentina, México e Colômbia, e prepara sua entrada no mercado latino dos Estados Unidos.
Com a rodada de US$ 800 mil, a companhia pretende escalar seu produto. A tese de Fonseca Zas é que o valor não está apenas em fotos ou arquivos, mas nas “histórias, vozes e recordações compartilhadas entre muitas pessoas”. Em vez de criar imagens ou textos do zero, a Mila se posiciona como uma ferramenta para capturar e organizar conversas humanas com valor emocional. O desafio é transformar uma solução nascida de uma necessidade íntima em um negócio escalável, sem perder a sensibilidade que o originou.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · La Nación — Tecnología





