Um ensaio publicado na revista de análise política e cultural Persuasion avança uma tese contra-intuitiva em tempos de polarização e ódio online: a censura não é, e nunca será, a solução para o antissemitismo. Pelo contrário, a defesa de princípios universais de liberdade de expressão, mesmo quando protegem discursos abomináveis, representa a salvaguarda mais segura para a comunidade judaica e outras minorias a longo prazo.
O argumento surge em um momento de profunda ansiedade. A amplificação de tropos antissemitas por influenciadores em plataformas como TikTok e YouTube, somada a um aumento em ataques físicos a sinagogas e membros da comunidade judaica nos EUA, criou o que o autor chama de “europeização da juderia americana”. O sentimento de segurança se esvai, substituído por uma vigilância constante. Nesse cenário, o apelo por regulação e censura de conteúdo de ódio é compreensível, mas, segundo a análise, estrategicamente equivocado. A tese central é que qualquer poder concedido para silenciar um inimigo hoje poderá, amanhã, ser usado para silenciar a própria minoria que buscava proteção.
O dilema de Skokie e a aposta constitucional
O texto evoca um caso emblemático da história legal americana para fundamentar seu argumento. Na década de 1970, quando um grupo neonazista planejou uma marcha em Skokie, Illinois — uma cidade com alta concentração de sobreviventes do Holocausto —, foi um advogado judeu da American Civil Liberties Union (ACLU), David Goldberger, quem defendeu o direito de manifestação do grupo. A lógica não era de simpatia pela causa, mas de fidelidade a um princípio: garantias constitucionais perdem o sentido se o governo pode escolher a quem se aplicam. A aposta era que a proteção de direitos universais, inscrita na Primeira Emenda da Constituição americana, é um alicerce mais sólido para minorias do que a benevolência de qualquer governante ou autoridade no poder.
Essa aposta histórica é análoga à passagem bíblica sobre o “novo rei que surgiu no Egito e não conhecia José”, que deu início à escravidão dos israelitas. A lição é que a proteção que depende do arbítrio do poder é inerentemente frágil. Contudo, a era das redes sociais testa esse princípio como nunca antes. A capacidade de disseminação de ideias tóxicas em escala massiva, antes restritas às margens do debate público, tornou o ambiente digital hostil. A tentação de “drenar o veneno” da política por meio da censura cresce não apenas entre judeus, mas em toda a sociedade. O problema, segundo o ensaio, é que o mundo onde essa censura cirúrgica funciona sem efeitos colaterais perversos simplesmente não existe.
Por que a censura falha
A desconfiança na censura como ferramenta eficaz se baseia em três premissas. A primeira é que os censores — sejam eles governos ou executivos de plataformas — não serão necessariamente racionais ou bem-intencionados, especialmente numa sociedade fraturada pela polarização. Entregar a eles o poder de escolher o que é dito é uma aposta ingênua. A segunda é que a censura frequentemente fracassa em seu objetivo, podendo até mesmo fortalecer ideias marginais ao lhes conferir o apelo do “fruto proibido”. Muitos influenciadores extremistas constroem suas carreiras se posicionando como vítimas de uma suposta censura, atraindo audiências pelo tabu que representam.
A terceira e mais fundamental premissa é que a raiz do problema é estrutural e tecnológica, não regulatória. A era em que grandes conglomerados de mídia atuavam como guardiões do debate público, com altos custos de produção e distribuição, acabou. Hoje, a capacidade de alcançar uma audiência de massa foi radicalmente democratizada. O ensaio aponta para a Europa como um laboratório dessa tese: países com leis robustas contra discurso de ódio, que criminalizam a negação do Holocausto e forçam a remoção de conteúdo, não se tornaram mais seguros para judeus, nem contiveram a ascensão de partidos de extrema-direita. A regulação, a menos que atinja níveis de repressão de ditaduras, não consegue reverter uma mudança tecnológica dessa magnitude.
Isso não significa que toda e qualquer forma de regulação seja inadmissível. Medidas como a restrição de redes sociais para crianças ou a responsabilização de plataformas que agem como editoras, amplificando ativamente certos conteúdos, são debates válidos. Contudo, a premissa maior se mantém. Para minorias, a história ensina que qualquer poder que pode arbitrariamente conceder proteção também pode, com a mesma arbitrariedade, retirá-la. A defesa de uma sociedade livre, com direitos iguais para todos, permanece a aposta mais segura, mesmo que seu preço seja tolerar a existência da fala que mais se despreza.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





