A atriz Sydney Sweeney, posando quase nua para uma campanha de apostas esportivas, e uma influenciadora 'tradwife' (esposa tradicional), cozinhando sorridente em uma cozinha imaculada, parecem universos opostos. No entanto, ambos os fenômenos operam sob a mesma lógica de marketing: provocar indignação, colher a atenção e, em seguida, negar qualquer intenção controversa. A tática, que especialistas em comunicação chamam de "indignação e negação", tornou-se um manual para monetizar a polarização cultural.
Segundo uma reportagem do Business Insider, a estratégia é deliberada. Tanto Sweeney quanto influenciadoras como Nara Smith e Hannah Neeleman (da Ballerina Farm) constroem suas marcas em cima de estereótipos femininos — a mulher hipersexualizada de um lado, a mãe e esposa devota do outro. Quando a reação inevitável chega, a resposta é sempre uma forma de ignorância calculada. A leitura aqui é que não se trata de ingenuidade, mas de um plano de negócios afiado para um ambiente de mídia saturado.
A negação como ativo
O caso de Sydney Sweeney com a startup de apostas Novig é exemplar. Após a repercussão negativa da campanha, a atriz afirmou que o conceito era simplesmente "cortar o ruído". O CEO da Novig, Jacob Fortinsky, confirmou que Sweeney, que tem participação acionária na empresa, liderou a concepção visual e a mensagem. Para Lauren Beeching, especialista em relações públicas de celebridades ouvida pelo Business Insider, Sweeney é "extremamente sagaz" e calculou que o custo da desaprovação seria muito menor que os ganhos de atenção. A defesa já estava pronta antes mesmo de o anúncio ir ao ar.
Do outro lado do espectro, as 'tradwives' aplicam o mesmo princípio. Elas constroem audiências massivas com conteúdo que evoca um ideal de domesticidade pré-moderna, mas rejeitam publicamente o rótulo de 'tradwife' para não se associarem à sua carga política, o que poderia afastar contratos com grandes marcas. Nara Smith, por exemplo, admitiu que sua presença online decolou quando adotou o formato de cozinhar para a família, então ela "se apoiou nisso", enquanto nega priorizar a vida de dona de casa. É uma forma de dissociar a marca do movimento que a tornou relevante.
A economia da atenção polarizada
Essa estratégia se alimenta da economia da atenção. "A negação plausível mantém a conversa em andamento e permite que elas mantenham sua marca", afirmou o estrategista de comunicação Lawrence Rosenberg. As imagens funcionam como mensageiras de ideias que, se ditas abertamente, seriam menos palatáveis. O resultado, por enquanto, é positivo: a campanha de Sweeney gerou engajamento massivo, Smith tem um livro de receitas a caminho e a loja da fazenda de Neeleman atrai filas de clientes.
Contudo, a tática pode ter um prazo de validade. A mesma reportagem aponta que Sweeney perdeu cerca de 200 mil seguidores após a polêmica recente, um sinal de que o público pode estar se cansando. Como observou Beeching, "atenção e vendas não são a mesma coisa". A linha entre o marketing astuto e o desgaste da imagem é tênue, e o uso repetido da "peça de xadrez da indignação", como definiu uma crítica, pode eventualmente perder sua eficácia.
A questão que fica no ar não é se a estratégia funciona, mas por quanto tempo ela se sustentará. O público pode continuar a morder a isca da controvérsia fabricada ou, eventualmente, passará a enxergar o manual por trás da performance.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





