Muito antes de arquitetos contemporâneos começarem a projetar 'hotéis para abelhas' ou corredores de vida selvagem em edifícios, os animais já determinavam a forma da arquitetura. A ideia de um 'design multiespécie', que ganha tração em debates sobre ecologia e urbanismo, é na verdade a redescoberta de uma condição antiga. Por séculos, estruturas na Europa, Ásia e Oriente Médio foram desenhadas para acomodar pombos, bichos-da-seda, cavalos e gado, integrando abrigo, agricultura e poder.

Uma reportagem da revista Designboom revisita essa história e complica a imagem da arquitetura como um domínio puramente humano. A análise desses edifícios históricos sugere que a questão central não é se devemos criar espaço para animais, mas com qual propósito e, fundamentalmente, quem se beneficia dessa convivência. A resposta varia da simbiose produtiva à pura extração industrial, passando pela ostentação de status social.

Da simbiose à caridade

Em Isfahan, no antigo Império Safávida (atual Irã), as torres de pombos, ou kabootar khaneh, são um exemplo de infraestrutura moldada pelo comportamento animal. As estruturas de adobe ofereciam nichos protegidos para as aves, que forrageavam livremente na paisagem. Em troca, seus dejetos eram coletados e utilizados como um valioso fertilizante agrícola. A arquitetura, aqui, funcionava como uma interface entre o voo livre das aves e a produtividade da terra, um sistema onde o abrigo gerava um recurso.

No Japão do período Edo, as fazendas gasshō-zukuri apresentavam outra forma de integração. Nessas casas de madeira com telhados de colmo íngremes, a vida doméstica e a sericultura (criação do bicho-da-seda) ocorriam sob o mesmo teto. O calor da lareira no andar térreo subia e aquecia os sótãos, onde os casulos eram cultivados. A casa era um sistema térmico único, unindo cozinha, aquecimento e produção de seda. Em outra vertente, as kuş evleri (casas de pássaros) otomanas, entalhadas nas fachadas de mesquitas e edifícios públicos, e os chabutros na Índia, plataformas elevadas para alimentar aves, refletiam uma integração urbana motivada por preceitos religiosos e de caridade, não pela extração de valor econômico.

O animal como símbolo e unidade de produção

A transição para a modernidade alterou essa relação. Na França, o colombier (pombo-correio) e os Grandes Estábulos do Château de Chantilly mostram como a arquitetura para animais passou a expressar riqueza e status. O direito de manter pombos (droit de colombier) era um privilégio senhorial. A escala e o ornamento dessas construções não serviam às aves, mas refletiam o poder de seu dono. Em Chantilly, os estábulos projetados por Jean Aubert para o Príncipe de Condé receberam um tratamento arquitetônico monumental, com abóbadas e fachadas de pedra dignas de um palácio, consagrando a importância do cavalo para a vida aristocrática.

O ponto de inflexão definitivo veio com o movimento das 'Model Farms' (fazendas-modelo) britânicas no século XIX. O foco se deslocou para a padronização, a ventilação, o saneamento e a eficiência. O animal deixou de ser um parceiro em um sistema integrado para se tornar uma unidade mensurável. A arquitetura virou uma ferramenta de controle, projetada para otimizar a relação entre insumos (ração, espaço, trabalho) e produtos (carne, leite). Essa lógica espacial, que separou a produção animal da vida cotidiana, pavimentou o caminho para a agricultura industrial moderna.

Vista sob essa perspectiva histórica, a busca atual por uma arquitetura que acolha outras espécies parece menos uma inovação e mais um retorno a uma relação que a modernidade abandonou. Por séculos, os animais fizeram parte dos espaços onde as pessoas viviam e trabalhavam. A industrialização quebrou essa conexão, movendo a vida animal para espaços controlados e invisíveis. O desafio que a arquitetura contemporânea herda é definir qual tipo de relação ela quer restabelecer com os animais que habitam seus projetos — e para quem, no final, esse espaço é realmente projetado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom