A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a taxa Selic para 14% ao ano foi acompanhada por uma ata que injetou uma dose cavalar de cautela no mercado. O documento, divulgado na última semana, expôs uma autoridade monetária dividida, equilibrando-se entre o reconhecimento de uma desinflação em curso e a preocupação com um cenário fiscal incerto e expectativas de inflação que teimam em não convergir para a meta.
O que poderia ser um sinal claro de um ciclo de afrouxamento monetário transformou-se em um complexo quebra-cabeça. A leitura da ata dividiu o mercado financeiro, com casas de análise e economistas posicionando-se em campos opostos. De um lado, os que veem espaço para novos cortes, ainda que modestos. Do outro, os que apostam em uma pausa prolongada, argumentando que o Banco Central sinalizou que o trabalho de combate à inflação está longe do fim. A questão central não é mais se o juro vai cair, mas a que ritmo e até onde, em um ambiente de alta imprevisibilidade.
O fantasma fiscal e a inflação que não cede
O principal ponto de tensão na análise do Copom reside na desancoragem das expectativas de inflação. A ata destacou o incômodo da diretoria com as projeções do boletim Focus, que apontam para uma inflação de 5,0% em 2026, bem acima do centro da meta. Segundo a análise de economistas consultados pela imprensa brasileira, esse descolamento está diretamente ligado à percepção de risco fiscal. O texto do BC menciona a preocupação com “incentivos recorrentes à demanda por parte da política fiscal”, um recado direto sobre o impacto dos gastos do governo na trajetória dos preços.
A dinâmica é perversa. Como aponta Roberto Troster, do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), o Copom acerta ao alertar que a trajetória da dívida pública eleva a taxa de juros neutra da economia. Contudo, ao manter a Selic em patamar elevado para conter a inflação, o próprio Banco Central contribui para aumentar o serviço da dívida, pressionando ainda mais as contas públicas. Essa retroalimentação cria um dilema para a política monetária: combater a inflação hoje pode agravar um de seus principais vetores no futuro.
Cortes homeopáticos ou pausa estratégica?
Essa complexidade se reflete nas projeções divergentes do mercado. Instituições como Ativa Investimentos e Genial enxergam a composição atual do Copom mais inclinada a prosseguir com o ciclo de cortes, ainda que em ritmo mínimo, de 0,25 ponto percentual por reunião. A Ativa, por exemplo, ajustou sua projeção para a Selic no fim do ano de 12,25% para 13,25%, apostando em um afrouxamento gradual. O Bradesco também indicou ver espaço para a continuidade do ciclo, condicionada à moderação da atividade econômica e à dissipação dos choques de preços.
Na outra ponta, economistas como Caio Megale, da XP, e instituições como o C6 Bank, interpretam a comunicação do BC como mais restritiva (hawkish). Para esse grupo, a ata deixa a porta aberta para uma pausa, permitindo que a autoridade monetária observe a evolução dos dados de inflação e atividade, além dos choques externos, como a alta do petróleo. A frase do comitê de que “a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário” é lida como um sinal de que a manutenção da Selic em 14% é uma possibilidade real. Para André Matos, da MA7 Capital, o recado é claro: “cortar não significa entrar num ciclo longo de queda”.
O pano de fundo global adiciona camadas de complexidade. A alta dos juros dos títulos do Tesouro americano e a cotação do petróleo Brent próxima de US$ 90 criam um ambiente adverso para ativos de risco e moedas emergentes. Para o Brasil, o desafio é duplo: navegar as pressões inflacionárias domésticas, em grande parte fiscais, sem perder de vista um cenário externo que exige prêmios de risco mais elevados. Para as empresas, o custo de capital segue sendo uma barreira, e a decisão do Copom nas próximas reuniões definirá o fôlego para investimentos e crescimento nos próximos trimestres.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





