Em uma longa conversa com o escritor Yascha Mounk, a estrategista política Sarah Longwell, publisher do site The Bulwark, dissecou o que talvez seja o maior enigma da política contemporânea: por que, depois de quase uma década, o Partido Democrata ainda não encontrou uma resposta eficaz para Donald Trump? A resposta, segundo a análise publicada no portal Persuasion, não está em novas políticas ou em um ajuste fino de mensagens, mas em uma falha fundamental de compreensão sobre a natureza do apelo de Trump e as fraquezas da própria máquina democrata.
Para Longwell, que conduz grupos focais com eleitores americanos de forma contínua, o erro primário é subestimar a conexão que Trump estabeleceu com o público. Não se trata de um político convencional, nem mesmo de uma celebridade. É uma figura que habita o imaginário americano há décadas — do magnata imobiliário ao apresentador de reality show. Essa onipresença criou uma percepção de familiaridade e, paradoxalmente, de autenticidade. Os eleitores, diz ela, sentem que “o conhecem”. A tese do artigo é que, enquanto os democratas não entenderem e combaterem essa percepção, continuarão perdendo a guerra da narrativa.
O Fator Trump e o Vácuo Democrata
A força de Trump, argumenta Longwell, reside em uma autenticidade performática que ressoa com uma parcela do eleitorado. Ele não finge ser um homem do povo; ele vive a fantasia que um homem do povo teria se fosse bilionário — com seus banheiros de ouro, jatinhos e pedidos de McDonald's em massa. Para muitos eleitores, isso é mais genuíno do que um político de carreira tentando forçar uma conexão com a classe trabalhadora. Trump é consistente em suas crenças, mesmo que sejam “equivocadas”, como seu antigo apreço por tarifas. Ele sabe o que pensa e, mais importante, o eleitor sabe o que ele pensa.
Do outro lado, os democratas sofrem de um “problema de ser bom no papel”. Candidatos como a vice-presidente Kamala Harris, segundo a análise, exemplificam essa falha. Apesar de um currículo impecável, a percepção recorrente nos grupos focais de Longwell era de que os eleitores “não sabem quem ela é” ou “o que ela defende”. Essa falta de uma identidade política clara e de uma conexão visceral com o eleitorado é um sintoma de um partido que, nas palavras da estrategista, “está mais confortável em um salão de professores do que no chão de uma fábrica”. A tentativa de fabricar uma imagem de “classe trabalhadora” para candidatos com origens privilegiadas soa falsa e aprofunda a desconfiança.
Máquinas de Guerra: Mercenários vs. Ativistas
A análise de Longwell, que já atuou como operadora política em ambos os partidos, revela uma diferença estrutural profunda em como cada lado funciona. O ecossistema republicano, ela descreve, é composto por “mercenários”. São consultores e estrategistas cujo principal objetivo é o negócio de vencer eleições. Eles se adaptam rapidamente, abandonando ideologias se necessário, para se alinharem ao que funciona — e Trump funcionou. Essa máquina é ágil, pragmática e focada em um único objetivo: poder.
O Partido Democrata, em contraste, é uma “coalizão indisciplinada” de organizações sem fins lucrativos e grupos de defesa de pautas específicas. Em vez de se alinharem para apoiar candidatos, esses grupos muitas vezes puxam os políticos em direções conflitantes, pressionando-os a adotar agendas que podem ser impopulares com o eleitorado mais amplo. Isso explica a hesitação e a dificuldade dos democratas em adotar posições claras e de senso comum em temas controversos, por medo de uma reação de sua própria base de ativistas. “Os autoritários estão no portão”, diz Longwell, mas o ecossistema democrata está ocupado com disputas internas e debates sobre se devem trabalhar às sextas-feiras.
A conclusão que emerge da análise não é um chamado para que os democratas imitem Trump ou desmantelem suas redes. Pelo contrário, a sugestão de Longwell é a de que precisam construir uma nova infraestrutura de comunicação, uma que entenda que a mídia tradicional não é mais um trunfo e que a comunicação “sempre ativa” se tornou a norma. O desafio é criar uma mensagem que ressoe para além dos círculos de ativistas e acadêmicos, falando diretamente ao eleitor que não vive de política, mas que decide eleições. A questão em aberto é se uma coalizão tão diversa e fragmentada é capaz de encontrar essa voz única.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion




