A iminente venda do Grupo Deoleo, um dos maiores conglomerados de azeite do mundo, está mobilizando forças políticas na Espanha. Salvador Fuentes, presidente da província de Córdoba, defendeu publicamente que a companhia, dona de marcas icônicas como a espanhola Carbonell e as italianas Bertolli e Carapelli, permaneça sob controle espanhol. A disputa não é trivial e coloca em jogo o futuro de um setor estratégico para o país.

Para Fuentes, a transação vai muito além de uma simples operação de mercado. A tese é que a aquisição da Deoleo pela Dcoop, uma gigante cooperativa que representa milhares de produtores, seria uma “oportunidade histórica”. O movimento consolidaria a cadeia produtiva, da colheita da azeitona à prateleira do supermercado, garantindo que o valor gerado por um dos produtos mais emblemáticos da Espanha beneficie sua própria base produtiva.

A soberania no prato

O apelo para “espanholizar” a venda da Deoleo se apoia em números robustos. Com um faturamento de €821 milhões e presença em 68 países — com destaque para o mercado americano —, a empresa não é um ativo qualquer. É um veículo de distribuição e branding global para o azeite espanhol. A preocupação é que, em mãos estrangeiras, especialmente de concorrentes como a italiana Coricelli, uma das interessadas, o foco estratégico poderia se desviar, prejudicando os produtores locais.

A defesa de uma solução nacional, liderada pela cooperativa Dcoop, é vista como uma forma de verticalizar o poder do agronegócio espanhol. A Espanha é a maior produtora de azeite do mundo, mas nem sempre captura o valor agregado na comercialização e na força das marcas. Manter a Deoleo em casa, e sob um modelo cooperativista, é uma aposta para corrigir essa distorção e fortalecer o poder de barganha dos agricultores.

Cooperativa vs. Capital

O embate coloca em lados opostos diferentes visões de futuro para o setor. De um lado, a Dcoop, que representa a base produtiva e promete reinvestir os ganhos na própria cadeia. Do outro, fundos de investimento ou players industriais, como a também espanhola Acesur e a italiana Coricelli, que poderiam priorizar a eficiência financeira ou outras sinergias estratégicas. A escolha do comprador definirá a governança e a distribuição de valor de um pilar da economia andaluza e espanhola.

A discussão espelha debates sobre a proteção de ativos estratégicos em outros países, inclusive no Brasil, onde setores como alimentos e energia são frequentemente objeto de preocupação nacional. O governo espanhol, até agora “prudente” na avaliação de Fuentes, terá um papel decisivo. Sua posição sinalizará o equilíbrio entre a abertura ao capital internacional e a defesa de sua política industrial agrícola.

No fim, a venda da Deoleo é um teste para o modelo de negócio do azeite espanhol. A decisão não definirá apenas o próximo dono de um portfólio de marcas valiosas, mas quem controlará a narrativa e a rentabilidade do “ouro líquido” da Espanha no cenário global.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España