A previsão de que os aeroportos das Ilhas Baleares recebam 50 milhões de passageiros em 2031, contida em um documento regulatório do governo espanhol, abriu uma crise entre a administração central e o governo regional. A presidente das Baleares, Marga Prohens, classificou a cifra como algo que “espanta” e acusou Madri de agir sem qualquer consulta prévia, tratando os terminais aéreos como meros instrumentos de arrecadação.
O embate expõe uma tensão crescente em destinos turísticos globais: o conflito entre a busca por crescimento econômico, ditada em nível nacional, e os esforços locais para mitigar os impactos do turismo de massa, o chamado 'overtourism'. Para Prohens, a projeção invalida as políticas de contenção de seu governo e reforça a necessidade de uma lei que garanta a cogestão dos aeroportos, hoje sob controle exclusivo do poder central.
O paradoxo da contenção
A reação de Prohens evidencia uma contradição fundamental. Enquanto o governo balear implementa medidas para frear o fluxo turístico — como a limitação da capacidade de hospedagem, a redução do número de cruzeiros e a proibição de novos apartamentos turísticos —, o governo espanhol, que controla os portões de entrada através da operadora aeroportuária AENA, planeja uma expansão massiva no volume de passageiros.
Nas palavras da presidente, os aeroportos são vistos por Madri como uma “caixa registradora”, uma fonte de receita que ignora as consequências para os cidadãos e a infraestrutura local. A crítica é que de nada adiantam os sacrifícios e as regulações impostas localmente se a porta de entrada segue escancarada e com planos de alargar ainda mais o seu fluxo. A disputa não é apenas sobre números, mas sobre a soberania na definição do modelo de desenvolvimento turístico.
A briga pela autonomia
A polêmica reacendeu o debate sobre a autonomia na gestão aeroportuária. A reivindicação por uma “lei de cogestão” é o pilar da resposta do governo balear. A tese é que a administração regional, que lida diretamente com os efeitos do turismo no dia a dia, deveria ter voz ativa nas decisões estratégicas sobre capacidade e expansão dos aeroportos, em vez de ser uma mera espectadora das políticas da AENA.
Este não é um dilema exclusivo da Espanha. De Amsterdã a Veneza, cidades e regiões lutam para ganhar controle sobre seus fluxos turísticos. O caso das Baleares ilustra como a gestão centralizada da infraestrutura pode entrar em rota de colisão direta com as metas de sustentabilidade e qualidade de vida locais. A crítica de Prohens é que, por trás do discurso de moderação, a prática do governo central segue a lógica do “quanto mais, melhor”.
O documento que projeta o tráfego para 2031 força uma confrontação que parecia inevitável. A questão que fica no ar é se economias dependentes do turismo conseguirão, de fato, transicionar de um modelo de volume para um de valor, e, mais importante, quem terá o poder de decidir os rumos dessa transformação.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





