Em uma calçada do Brooklyn Heights, em Nova York, entre carrinhos de bebê e passeadores de cães, caminha Will Poulter. O ator londrino, que nos últimos anos navegou por produções de grande escala como 'Guardiões da Galáxia' e 'Black Mirror', carrega o ar casual de quem pertence àquele cenário. Mas sua mente e seu mais recente trabalho estão a centenas de quilômetros dali, em uma zona rural de Ohio, no coração de uma das crises mais profundas da América contemporânea.
Em uma extensa entrevista à revista i-D, Poulter detalha sua imersão em 'Union County', um filme independente que ele não apenas estrela, mas também produz. A obra, dirigida por Adam Meeks, é uma ficção que beira o documental ao mergulhar no dia a dia de uma corte de recuperação para dependentes químicos. O movimento de Poulter, de blockbusters para um projeto tão visceral e contido, sinaliza mais do que uma escolha de carreira: é um questionamento sobre como o cinema pode e deve retratar tragédias sociais, trocando o espetáculo da dor pela complexidade da cura.
A gramática de Hollywood
Existe uma “gramática de Hollywood”, como define Poulter, para narrar assuntos como guerra e dependência. É uma linguagem de clichês visuais e narrativos que, de tão repetida, acabou por dessensibilizar o público. A representação da dependência química frequentemente se apoia em imagens de degradação, em paisagens que refletem a dureza e a privação, focando quase exclusivamente no vício, e não em quem o enfrenta. 'Union County' propõe uma ruptura deliberada com essa sintaxe. A decisão mais radical do filme, segundo o ator, talvez seja a de não exibir uma única cena de uso de drogas.
Essa escolha força o espectador a deslocar seu olhar. Em vez da devastação, a câmera busca a humanidade. O projeto nasceu da imersão do diretor Adam Meeks na comunidade de Bellefontaine, Ohio, enquanto visitava a família. Lá, ele conheceu Annette Deao, uma conselheira de dependência química que dirige o programa de recuperação local há décadas. O filme foi construído com a comunidade, não sobre ela. Deao e outros participantes do programa real atuam como versões de si mesmos, emprestando uma autenticidade que o roteiro mais bem pesquisado dificilmente alcançaria. É a diferença fundamental entre extrair uma história de um lugar e construí-la em colaboração com ele.
A beleza da recuperação
A jornada de Poulter até este tema teve um prelúdio. Sua participação na minissérie 'Dopesick', que dissecou as origens da crise dos opioides nos Estados Unidos, mostrou-lhe os “vislumbres do que o futuro pode reservar para quem se interessa pela recuperação”. 'Union County', em suas palavras, responde a essa questão com um foco maior na recuperação do que na própria dependência. É uma resposta propositiva e acionável a um problema que, por sua escala, muitas vezes parece paralisante. A narrativa se concentra no que funciona: nos mais de 4.000 tribunais de resolução de problemas espalhados pelos EUA, que oferecem uma alternativa ao sistema penal tradicional.
O processo de pesquisa, meses antes das filmagens, revelou a Poulter as camadas de complexidade por trás do estigma. Ele ouviu histórias que conectam o aumento da dependência entre jovens à ausência de espaços de convivência e lazer — o fechamento de pistas de skate, cinemas e centros comunitários. É um ângulo que desafia a noção simplista de que a crise é apenas um problema de desemprego ou falha moral. O filme se esforça para capturar a beleza da região, contrariando a tendência de associar a dependência a cenários de desolação. Afinal, a crise dos opioides não escolhe CEP, e a dignidade da luta pela recuperação pode florescer mesmo nos lugares mais inesperados.
O resultado dessa imersão transcendeu a tela. Um ano após o término das filmagens, a estreia do filme em Bellefontaine coincidiu com a cerimônia de graduação de muitos dos participantes reais do programa de recuperação. Poulter relata a emoção de reencontrá-los, agora com mais um ano de sobriedade, com os empregos que almejavam e os laços familiares que esperavam reconstruir. Naquele momento, a fronteira entre o filme e a vida se dissolveu, deixando uma imagem poderosa: a de que uma história, quando contada com respeito e colaboração, pode se tornar parte da própria recuperação que retrata.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · i-D





