A Casa Branca de Donald Trump elevou o tom na guerra comercial com a China, acusando Pequim de orquestrar um esquema de triangulação para evitar as tarifas americanas. Segundo um relatório divulgado pelo assessor comercial Peter Navarro, a China estaria usando mais de 40 países, incluindo México e Malásia, para reprocessar e reembalar seus produtos, mascarando sua origem e driblando as barreiras de importação.

A prática, conhecida como transshipping, não é nova, mas a retórica empregada por Navarro é deliberadamente incendiária. Ao afirmar que a China está "lavando suas exportações", a administração americana enquadra uma manobra logística como uma atividade quase criminosa. A análise da Fortune, que reportou o documento, aponta para uma perda de receita fiscal entre US$ 19 bilhões e US$ 26 bilhões anuais para os EUA.

A retórica como arma

O ponto central aqui é menos a mecânica do transshipping e mais o poder da narrativa. Ao usar o termo "lavanderia", Navarro transforma um debate complexo sobre regras de origem e cadeias de suprimentos globais em uma história simples de trapaça. O relatório estima que entre US$ 34 bilhões e US$ 303 bilhões em mercadorias sejam trianguladas anualmente, um intervalo vasto que demonstra a dificuldade de mensurar o problema com precisão.

A estratégia parece ser criar uma justificativa moral para a política de tarifas, pintando a China não apenas como uma competidora econômica, mas como um ator que joga sujo. Essa narrativa ressoa com a base política do governo e serve para endurecer a posição americana em futuras negociações, incluindo uma visita planejada do líder chinês Xi Jinping.

O jogo além das tarifas

Ao nomear dezenas de outros países como cúmplices involuntários, Washington também envia um recado a seus parceiros comerciais: a fiscalização será intensificada. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA já estaria usando protótipos de inteligência artificial para detectar essas operações e, segundo Navarro, pode aplicar tarifas retroativas de até um ano sobre importadores fraudulentos.

O movimento ocorre em um momento em que, apesar das tarifas, o desequilíbrio comercial americano persiste, ainda que em nível menor que no ano anterior. A publicação do relatório funciona como uma peça de pressão diplomática, estabelecendo um clima de confronto antes de qualquer diálogo. É um lembrete de que, na geopolítica contemporânea, a batalha pela opinião pública é tão crucial quanto a balança comercial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune