Em um terreno de acesso restrito em Kyoto, onde antes ficava a casa de infância de um dos clientes, o escritório Tato Architects ergueu uma residência que é um estudo sobre a manipulação da luz e do espaço. Projetada para um casal e seu gato, a 'House in Shichiku' parte de uma forma simples — um volume de duas águas revestido de metal — para criar uma experiência interna complexa e surpreendente.

O projeto, reportado pela publicação de design e arquitetura Dezeen, vai além da solução de um lote desafiador. A tese aqui é que, através de decisões de design aparentemente pragmáticas, é possível criar um fenômeno arquitetônico. Ao rotacionar a casa em relação ao lote e usar superfícies reflexivas, os arquitetos transformaram a luz natural na principal ferramenta para definir e, ao mesmo tempo, dissolver a geometria do ambiente.

A geometria da luz

A primeira decisão estruturante do projeto foi rotacionar a planta da casa, desalinhando-a das propriedades vizinhas. Essa torção cria quatro jardins em forma de cunha nos cantos do terreno, cada um com uma característica distinta. Enquanto o exterior se desvia da malha urbana, as paredes internas foram alinhadas à grade da cidade, gerando uma tensão geométrica que é o ponto de partida para todo o conceito.

Para combater a baixa luminosidade do local, a estratégia foi multifacetada. No centro da casa, um vazio atravessa os dois andares, funcionando como um poço de luz. No térreo, o pé-direito é baixo, com pouco mais de dois metros, mas os tetos foram pintados com uma tinta prateada sutilmente reflexiva. Este acabamento não apenas amplia a sensação de espaço, mas também captura e distribui a luz que entra pelas janelas de pé-direito total, criando um ambiente difuso e em constante mudança.

Do prático ao fenomenal

O que poderia ser apenas um truque para lidar com a baixa altura torna-se o elemento central da experiência espacial. Nas palavras de Yo Shimada, fundador do Tato Architects, o teto prateado “amplifica a ambiguidade entre as duas geometrias”, fazendo com que a percepção do espaço vacile. Uma decisão prática sobre altura, segundo ele, torna-se “o fenômeno que une toda a casa”.

Essa dualidade continua no andar superior. O acabamento de gesso cinza do térreo dá lugar a um “mundo de madeira”, onde o compensado lauan reveste quase todas as superfícies. Aqui, as paredes que dividem os quartos não alcançam o teto alto e inclinado, permitindo que a luz das claraboias se espalhe livremente por todo o piso. É um contraponto material que reforça a mesma lógica de fluidez e luz compartilhada.

Ao final, a 'House in Shichiku' demonstra como restrições podem ser o catalisador para a inovação. O projeto não entrega apenas uma moradia funcional, mas uma arquitetura que convida à contemplação sobre como a forma, a matéria e a luz constroem nossa percepção da realidade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen