Em 11 de junho de 1938, Hugh Lord acordou com a água do Lago Mead ao redor de sua cama. O último residente de St. Thomas, em Nevada, carregou seus pertences em um barco, ateou fogo à própria casa e remou para longe, assistindo seu passado ser engolido pelo avanço do maior reservatório dos Estados Unidos. Por quase um século, St. Thomas foi uma cidade-fantasma submersa, um sacrifício no altar do progresso americano.
O progresso que submerge
Fundada por pioneiros mórmons em 1865, St. Thomas era um oásis improvável no deserto, um polo agrícola e comercial com cerca de 500 habitantes, hotel, escola e sorveteria. Sua sentença de morte foi assinada em 1928, com a aprovação do projeto que criaria a monumental Represa Hoover. A cidade estava no caminho da inundação. O governo federal indenizou os moradores, que partiram, deixando para trás as fundações de suas vidas. O gesto de Hugh Lord foi o epílogo dramático de uma comunidade apagada do mapa em nome da geração de energia e do abastecimento de água para o sudoeste americano – uma narrativa de domínio humano sobre a natureza.
A seca que revela
O que a engenharia humana submergiu, a crise climática trouxe de volta à superfície. Desde os anos 2000, uma seca prolongada e severa fez o nível do Lago Mead recuar de forma drástica, expondo o que restou de St. Thomas. As ruínas, antes visitadas apenas por mergulhadores, hoje são acessíveis por uma trilha. Os alicerces das casas, as escadarias que não levam a lugar nenhum e os contornos das antigas ruas se tornaram um ponto turístico fantasmagórico. O local, que simbolizava o poder da América em domar rios, transformou-se em um memorial involuntário de sua vulnerabilidade. A cidade não é mais uma nota de rodapé histórica, mas um sintoma visível da escassez hídrica que assola a região.
Hoje, visitantes caminham pelo leito seco do lago, entre os vestígios de uma vida que foi. O silêncio do deserto ocupa o lugar onde barcos navegavam a quase 20 metros de altura. A história de St. Thomas, a cidade que a água levou e a seca revelou, deixa uma imagem persistente: a de um passado que emerge para nos assombrar com as consequências de nosso futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





