O escritório texano Schaum Architects assumiu a delicada tarefa de restaurar os dois Artillery Sheds na Chinati Foundation, o museu a céu aberto que o artista Donald Judd estabeleceu em Marfa, Texas, como um santuário para suas obras. Os galpões, originalmente estruturas militares dos anos 1930, foram radicalmente transformados por Judd nos anos 1980 para abrigar suas monumentais instalações de alumínio.

O desafio aqui transcende uma simples reforma. Trata-se de intervir em uma obra onde arquitetura e arte são indissociáveis. A premissa, segundo reportagem da publicação de design e arquitetura Dezeen, é realizar uma espécie de cirurgia de precisão: atualizar os sistemas do edifício para garantir sua longevidade, mas com uma abordagem que Troy Schaum, fundador do estúdio, descreve como "editar nas bordas". O objetivo é que o visitante jamais perceba as intervenções.

A filosofia da edição

A visão de Judd para os galpões foi específica: ele adicionou os telhados curvos, no estilo de abrigos Quonset, e substituiu as portas de garagem por janelas quadriculadas, criando um diálogo constante entre o interior e a paisagem desértica. A restauração proposta pelo Schaum Architects respeita essa integração. Não se trata de consertar o envelope do prédio e depois cuidar da paisagem; os dois elementos são tratados como um sistema único.

As soluções são sutis e funcionais. Novas calhas, por exemplo, serão integradas à estrutura metálica do telhado, servindo também como reforço contra os ventos fortes da região. A água captada por esse novo sistema alimentará o projeto de paisagismo, que irá restaurar áreas do terreno ainda degradadas pelo antigo uso militar e incluirá um caminho com acessibilidade.

Clima, arte e energia

Talvez o maior dilema do projeto seja a climatização. Atualmente, os galpões não possuem nenhum sistema mecânico, operando em um silêncio que é parte integral da experiência da obra. Instalar um ar-condicionado convencional seria quebrar essa imersão e gerar um alto custo energético. A solução encontrada é tão engenhosa quanto discreta: um sistema de filtragem de ar de baixa energia, alimentado por painéis solares, será instalado aproveitando as juntas de dilatação já existentes no piso de concreto.

Segundo o estúdio, será "um sistema que os visitantes nunca verão ou ouvirão". O ar filtrado circulará minimamente, e o tratamento dos vidros das janelas criará uma pressão positiva para reduzir a poeira e moderar as temperaturas extremas. A abordagem representa uma vanguarda na prática de conservação mundial: em vez de perseguir um ambiente estático e artificial de museu, a meta é "moderar os extremos", ponderando as necessidades da arte com a demanda energética e a experiência do espaço.

Durante a obra, as peças de alumínio de Judd serão removidas pela primeira vez desde sua instalação. O projeto força uma reflexão sobre os limites da preservação. A intervenção, por mais invisível que se pretenda, se torna parte da história contínua da obra, levantando a questão de como um legado arquitetônico dialoga com a inevitável passagem do tempo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen Architecture