Empresas que apostam em inteligência artificial para enxugar a folha de pagamento podem estar assinando um cheque caro para o futuro. Uma nova projeção da consultoria Gartner estima que, até 2029, cerca de um terço dos funcionários demitidos em nome da automação por IA precisarão ser recontratados, frequentemente a um custo significativamente maior.

O alerta, baseado em uma análise do The Register, expõe uma tensão fundamental na era da IA: a economia de curto prazo pode gerar um déficit estratégico de longo prazo. A tese é que, ao focar excessivamente na automação como ferramenta de corte, as companhias arriscam minar seu pipeline de talentos e erodir o conhecimento institucional — o ativo intangível que diferencia uma organização.

O cálculo míope do corte de custos

Segundo o Gartner, o maior erro da era da IA será acreditar que o objetivo é a automação do trabalho, quando a real oportunidade está na "amplificação da força de trabalho". A consultoria prevê que, até 2027, três quartos das organizações que priorizarem a redução de custos serão superadas por concorrentes que reinvestirem os ganhos de produtividade em inovação, modernização e qualificação dos seus times.

A lógica é que, em um cenário de crescimento estagnado ou negativo da força de trabalho global, a competição por talentos qualificados só irá se intensificar. As demissões de hoje podem se transformar nos custos inflacionados de recrutamento, treinamento e integração de amanhã. A vantagem, portanto, não será de quem corta mais rápido, mas de quem reconfigura o trabalho de forma mais inteligente.

Remix de talentos, não substituição

Em vez de uma estratégia de substituição, o Gartner propõe um "remix de talentos". A ideia é usar a IA para remodelar funções, redirecionando os trabalhadores de tarefas menos produtivas para novas oportunidades que exijam criatividade, julgamento e liderança — capacidades que a tecnologia, por ora, apenas auxilia.

O objetivo é construir uma organização "moldada pela IA", onde o valor da tecnologia é composto ao redesenhar fluxos de trabalho e aumentar a velocidade, não ao simplesmente eliminar postos. O setor de tecnologia já oferece exemplos do que não fazer: a Oracle, por exemplo, reduziu sua força de trabalho em 21 mil pessoas no último ano, citando a adoção de IA. Se a análise do Gartner estiver correta, a conta dessa decisão pode chegar no futuro.

A discussão, portanto, transcende a dicotomia entre humanos e máquinas. A questão estratégica é como usar a IA para fortalecer o julgamento e a criatividade dos funcionários, em vez de apenas substituí-los. As empresas que encontrarem essa resposta primeiro terão a vantagem competitiva na próxima década.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register