Esther Perel passou a carreira explorando as complexidades das relações humanas, dissecando a tensão entre amor e desejo. Agora, a psicoterapeuta belga volta sua atenção para o escritório, onde acredita que uma crise silenciosa está em curso. Em um mundo corporativo obcecado por produtividade, adoção de IA e crescimento em economias estagnadas, Perel argumenta que os executivos estão ignorando um problema mais fundamental e urgente: a atrofia do tecido social que mantém as organizações coesas.

Segundo uma reportagem da revista Fortune, Perel diagnostica que o baixo engajamento de funcionários — na Europa, o menor do mundo, com apenas 12%, segundo o Gallup — é um sintoma dessa erosão invisível. O trabalho remoto, a ansiedade econômica e, mais recentemente, a inteligência artificial, estariam enfraquecendo o "músculo" da conexão humana. O resultado é um estado generalizado de retração que espelha o que já acontece na vida pessoal, onde a conveniência e a ausência de atrito se tornaram o padrão.

O músculo enfraquecido

Para Perel, a capacidade de se conectar com outras pessoas, suportar uma conversa trivial ou simplesmente estar presente fisicamente é uma habilidade que, como qualquer músculo, se enfraquece sem prática. A cultura do trabalho pós-pandemia, segundo ela, conspira contra esse exercício. As chamadas de vídeo, com seus fundos de tela borrados que apagam o contexto pessoal, tornaram-se puramente transacionais. "Você entra no Zoom, ninguém diz olá... e vai direto para 'qual é a pauta de hoje'. No momento em que a tarefa termina, a reunião termina", afirma.

Essa dinâmica elimina as conversas pequenas e sem importância aparente que, na visão da psicoterapeuta, são a fundação para as conversas difíceis e cruciais que uma liderança precisa ter. A situação é agravada por um clima de ansiedade econômica que leva os profissionais a se apegarem a seus empregos — um fenômeno que ela chama de "job hugging" em oposição ao "job hopping". Essa aversão ao risco diminui as oportunidades de conhecer novas equipes e construir redes de contato, achatando ainda mais a vida social no ambiente de trabalho.

A IA como acelerador do isolamento

A inteligência artificial, vendida como a solução para todos os gargalos de eficiência, surge no diagnóstico de Perel como um potente acelerador dessa desconexão. "A IA está absorvendo o tempo que costumava ser gasto com outras pessoas", diz ela. Perguntar algo a um chatbot em vez de a um colega não elimina apenas aquela interação, mas todas as conversas importantes que poderiam se seguir. Um estudo da Workday corrobora a tese: 3 em cada 10 funcionários relatam ter menos paciência para conversas triviais e mais dificuldade em ler o tom emocional dos colegas desde a introdução da IA em seu trabalho.

Além disso, a automação de tarefas rotineiras, muitas vezes usadas para justificar demissões em massa, elimina o que antes era um campo de treinamento essencial para profissionais em início de carreira. Eram nessas atividades que eles aprendiam a mecânica do ofício e, crucialmente, formavam seus primeiros laços profissionais. Ao eliminar essas posições, as empresas não apenas cortam custos, mas também arriscam criar um vácuo em seus futuros pipelines de talento. Perel nota que, em conferências de negócios, executivos parecem "empolgados" com a possibilidade de reduzir contratações de base. A atitude só muda, diz ela, quando os provoca a trocar o termo "Geração Z" por "nossos filhos".

Perel aconselha os líderes a abandonar o clichê de que "a empresa é uma família" — um discurso que, segundo ela, prepara o terreno para a decepção no primeiro sinal de crise. A solução não está em ferramentas mais eficientes ou reuniões mais curtas, mas em uma mudança cultural profunda. O desafio, para ela, é criar um espaço seguro para a ansiedade e reaprender a lidar com a imperfeição, a imprevisibilidade e a complexidade dos outros seres humanos. A verdadeira fronteira para os negócios, sugere, não é tecnológica, mas fundamentalmente humana: o que acontece com nossas expectativas uns dos outros quando a interação sem atrito e desincorporada se torna o padrão?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune