A agência de classificação de risco Moody's formalizou em um relatório o que já era uma certeza nos corredores do poder em Bruxelas e Washington: o afastamento gradual dos Estados Unidos da segurança europeia é um fator negativo para o crédito soberano dos países do continente. A lógica é direta: com o tio Sam se voltando para outras prioridades estratégicas, a Europa terá que assumir a conta de sua própria defesa.

Esta mudança, confirmada na última cúpula da Otan com o acordo para ampliar a responsabilidade dos membros europeus, representa o fim de uma era. O movimento encerra décadas do chamado "dividendo da paz", período em que nações europeias puderam manter orçamentos de defesa relativamente baixos sob o guarda-chuva militar americano, alocando recursos para o estado de bem-estar social e outras prioridades. Agora, a realidade fiscal bate à porta.

O preço da autonomia estratégica

O alerta da Moody's quantifica uma transição geopolítica em curso. A necessidade de rearmamento não é apenas uma reação à guerra na Ucrânia, mas uma consequência estrutural do pivô americano para a Ásia e de uma política externa menos intervencionista. Para a Europa, a busca pela "autonomia estratégica" deixa de ser um conceito abstrato e ganha uma cifra, que será paga com endividamento ou cortes em outras áreas.

O impacto na qualidade de crédito, segundo a agência, dependerá de como essa transição será gerida. A questão é que ela ocorre em um momento de fragilidade fiscal para muitas nações, que ainda lidam com as dívidas da pandemia e da crise energética. Aumentar os gastos militares para atingir as metas da Otan significará escolhas políticas difíceis, competindo diretamente com investimentos em transição verde, saúde e educação.

Dilemas fiscais à vista

A pressão por mais gastos com defesa cria um dilema para os ministros das finanças do continente. Países com balanços fiscais mais frágeis, especialmente no sul da Europa, podem enfrentar maior escrutínio dos mercados ao tentarem financiar essa nova demanda orçamentária. A Moody's não faz previsões, mas o recado é claro: a disciplina fiscal será testada.

Para o ecossistema de tecnologia e inovação, a leitura é dupla. Por um lado, o aumento do investimento em defesa pode impulsionar setores de alta tecnologia, como cibersegurança, drones e inteligência artificial. Por outro, a pressão sobre os orçamentos públicos pode reduzir o financiamento para pesquisa e desenvolvimento em outras áreas, além de potencialmente levar a um ambiente de impostos mais altos.

A era da defesa subsidiada acabou. O desafio europeu, agora, é financiar seu rearmamento sem comprometer seu modelo social e sua estabilidade econômica. A forma como o continente navegará por essa transição definirá não apenas sua segurança, mas também sua trajetória de crédito e prosperidade nas próximas décadas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times