A Reforma Tributária está deixando de ser um tema para especialistas e se tornando a pauta central na mesa de estratégia das empresas brasileiras. À medida que a transição para o novo modelo de tributação sobre o consumo se aproxima de etapas decisivas, o desafio transborda das áreas fiscal e jurídica para redesenhar operações, da precificação de produtos à localização de centros de distribuição.
Uma pesquisa da consultoria Deloitte, detalhada em reportagem do InfoMoney, quantifica essa mudança de patamar. O levantamento com 148 grandes organizações mostra que, embora 89% já tenham realizado estudos sobre os impactos da reforma, a principal preocupação para quase 60% delas é a complexidade da convivência entre os sistemas antigo e novo. A leitura é clara: o conhecimento teórico das regras agora precisa ser traduzido em decisões operacionais complexas, transformando a reforma em um teste prático de gestão e adaptação.
Do incentivo à logística: um novo mapa de operações
Por décadas, a estratégia de localização de muitas indústrias e varejistas no Brasil foi desenhada em função de incentivos fiscais estaduais. A reforma, ao unificar a tributação e prever o fim gradual desses benefícios, força um redesenho completo da malha logística do país. Onde manter um centro de distribuição ou uma fábrica deixa de ser uma equação puramente fiscal para se tornar uma análise de eficiência logística, proximidade de mercados consumidores e resiliência da cadeia de suprimentos.
Os dados da Deloitte indicam que este movimento já começou. Entre as empresas que hoje recebem incentivos, 57% consideram rever sua localização geográfica ou ajustar a cadeia de suprimentos. Segundo Caroline Verginelli, sócia da Deloitte, a mudança envolve todos os departamentos, do comercial ao supply chain. O planejamento tributário deixa de ser uma função de suporte para se integrar ao núcleo da estratégia empresarial, exigindo que líderes de operações, vendas e tecnologia participem ativamente da implementação.
O risco no preço e a pressão sobre o caixa
Dois riscos imediatos se destacam: a formação de preços e a gestão do capital de giro. No primeiro caso, a transição pode criar distorções competitivas. Conforme a pesquisa, 51% das empresas projetam aumento da carga tributária. No entanto, o advogado Daniel Loria, ex-diretor da Secretaria Extraordinária da Reforma Tributária, alerta para um risco de “inflação artificial”. Empresas que, por insegurança, simplesmente adicionarem a nova alíquota sobre o preço antigo — sem antes expurgar os impostos que deixarão de existir — podem se tornar mais caras que concorrentes com uma capacidade de cálculo mais apurada. A competência tributária vira, assim, uma vantagem competitiva.
O segundo risco, mais silencioso, está no fluxo de caixa. A transição prevê que saldos credores de PIS e Cofins possam ser usados para abater débitos da nova CBS. A preocupação do mercado é com a velocidade com que a Receita Federal processará esses pedidos de compensação. Uma eventual demora pode forçar as empresas a desembolsar o valor integral do novo imposto, drenando o capital de giro justamente em um período de juros altos e após o pagamento de despesas de fim de ano. Uma companhia pode ter o crédito no papel, mas enfrentar uma crise de liquidez na prática.
A transição tributária se revela, portanto, muito mais do que uma mudança de alíquotas. Ela funciona como um catalisador que força as empresas a modernizarem seus sistemas de gestão (ERPs), a requalificarem suas equipes e, fundamentalmente, a repensarem suas estratégias de negócio. A tecnologia deixa de ser suporte para se tornar essencial, mas a dificuldade em contratar profissionais qualificados surge como um gargalo. No fim, o sucesso na nova economia tributária do Brasil dependerá menos da interpretação da lei e mais da agilidade na execução operacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





