O Morgan Stanley colocou números no principal temor que ronda o mercado brasileiro: a ausência de um plano fiscal crível após as eleições de 2026. Em um relatório que trata o pleito como um referendo sobre as contas públicas, o banco americano projeta um cenário pessimista em que o dólar alcançaria R$ 6,00, a taxa Selic subiria para 15,50% e o crescimento do PIB seria de apenas 0,2% até 2027.

Segundo reportagem do InfoMoney, a análise do banco parte da premissa de que os investidores estão otimistas demais com o cenário pós-eleitoral. A tese central é que o próximo governo não precisará resolver o quadro fiscal imediatamente, mas terá que convencer o mercado de que a trajetória da dívida é sustentável. Uma falha nessa comunicação de confiança pode ser o gatilho para uma severa reprecificação dos ativos.

O ciclo não-linear do risco

O cerne do alerta do Morgan Stanley reside no que os analistas chamam de um “ciclo não linear de prêmios de risco mais altos”. A lógica é que um plano de ajuste fiscal tímido ou pouco convincente seria interpretado pelo mercado como um sinal de que a dinâmica da dívida pública seguirá se deteriorando. O diagnóstico se apoia na rigidez estrutural do orçamento, onde mais de 91% dos gastos são obrigatórios, e no fato de que o resultado primário atual é insuficiente para estabilizar a dívida.

Neste cenário, a reação seria uma espiral negativa: a desconfiança eleva os prêmios de risco, o que enfraquece o real. Com o câmbio pressionado e as expectativas de inflação se desancorando, o Banco Central teria espaço limitado para cortar juros, freando a atividade econômica. Uma economia mais fraca, por sua vez, piora a arrecadação e a dinâmica da dívida, retroalimentando o ciclo. No cenário pessimista, a dívida bruta ultrapassaria 100% do PIB em 2033.

A assimetria da reprecificação

Talvez o ponto mais agudo da análise seja a velocidade com que o mercado pode reagir. “A entrega fiscal será gradual, mas a reprecificação dos ativos brasileiros não precisa ser”, resume o relatório. Isso significa que a desconfiança se instala de forma quase instantânea, enquanto a construção de credibilidade fiscal é um processo que leva anos. O cenário ruim, portanto, seria precificado muito mais rapidamente do que um eventual cenário positivo.

Essa assimetria informa a estratégia de alocação do banco. Mesmo em seu cenário-base, com dólar a R$ 5,25 e Selic a 11,00% em 2027, os riscos pendem para o lado negativo. Para o Ibovespa, o cenário pessimista projeta uma queda aos 130 mil pontos. O otimista, que exigiria um forte ajuste e levaria o dólar a R$ 4,50, mira 250 mil pontos, mas é visto como um caminho mais árduo e demorado.

O relatório do Morgan Stanley não é uma previsão, mas um mapa dos caminhos que se abrem a partir de 2027. A mensagem é clara: a inércia política tem um preço, e o mercado financeiro pode emitir a fatura muito antes que o governo consiga apresentar um plano. A disputa, no fim, é entre a velocidade da política e a da percepção de risco.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney