O governo federal projeta um superávit primário de R$ 18,6 bilhões para 2027. A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, prevê um déficit de R$ 86,1 bilhões para o mesmo ano. Entre a projeção oficial e a análise técnica, há um abismo de R$ 104,8 bilhões, segundo reportagem do Money Times baseada no último relatório da IFI.
A distância não é apenas um detalhe contábil. Ela expõe uma divergência fundamental sobre a trajetória da economia brasileira e a sustentabilidade do novo arcabouço fiscal. De um lado, o otimismo do Executivo, que aposta em um cenário de crescimento robusto e controle de gastos. Do outro, o pragmatismo da IFI, que adota premissas mais conservadoras e alerta para os riscos à frente.
O motor da divergência
A principal fonte da discrepância está nas projeções macroeconômicas. O governo ancora seu Orçamento para 2027 em uma expansão de 2,5% do PIB. A IFI, por sua vez, trabalha com um crescimento mais modesto, de 1,8% — mais próximo do consenso de mercado. Essa diferença, aparentemente pequena, tem um impacto direto e massivo na arrecadação de impostos.
As divergências se estendem a outros indicadores cruciais. O governo prevê uma inflação de 3,6%, contra 4,0% da IFI, e um crescimento da massa salarial de 10,1%, ante 7,3% na projeção do órgão independente. A IFI também aponta para projeções de despesas subestimadas em áreas como Previdência, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e sentenças judiciais.
O preço do otimismo
As implicações práticas desse descompasso são severas. Para que a meta fiscal de 2027 seja cumprida, mesmo no piso da banda de tolerância, a IFI calcula que seria necessário um bloqueio de R$ 35,7 bilhões no Orçamento. Esse contingenciamento seria o preço a pagar caso o cenário otimista do governo não se materialize.
A conta pode ser ainda maior. A análise da IFI ainda não inclui uma nova despesa de R$ 33,8 bilhões prevista na reforma tributária. O alerta mais grave, no entanto, é de longo prazo: mesmo que a meta de 2027 seja atingida, o resultado seria insuficiente para estabilizar a dívida pública, que, nas projeções da instituição, alcançaria 86,4% do PIB naquele ano.
O debate, portanto, não é sobre quem está certo, mas sobre a gestão do risco fiscal. O Orçamento do governo é uma aposta em um cenário favorável. O relatório da IFI funciona como um contraponto necessário, dimensionando o tamanho do ajuste que pode ser exigido caso a realidade se mostre menos generosa. O caminho para a estabilização da dívida continua íngreme.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





