A Casa Branca voltou a apostar em tarifas como instrumento de política econômica e fiscal, mas a matemática, por enquanto, não joga a favor do plano. Uma nova rodada de sobretaxas sobre importações de 60 países, anunciada pela administração de Donald Trump, deve gerar cerca de US$ 950 bilhões em receita até 2036. O valor, embora expressivo, é insuficiente para cobrir o buraco deixado por medidas anteriores derrubadas na Justiça.
A análise é do Committee for a Responsible Federal Budget (CRFB), um influente observatório fiscal americano, e foi reportada pela revista Fortune. Segundo o comitê, o novo plano tarifário cria um déficit de US$ 825 bilhões em relação às projeções de arrecadação originais, cobrindo menos de 60% da receita que o governo esperava obter com planos mais agressivos que foram declarados ilegais pela Suprema Corte.
A matemática da dívida
O xadrez fiscal da administração Trump é complexo. As novas tarifas, que variam de 10% a 12,5%, foram impostas sob a justificativa de combater o uso de trabalho forçado em parceiros comerciais. Elas substituem um conjunto de sobretaxas mais amplo, que o presidente havia tentado implementar por meio de poderes de emergência econômica (a lei IEEPA), mas que a Suprema Corte barrou em fevereiro. A decisão não apenas invalidou a fonte de receita, como obrigou o governo a devolver cerca de US$ 175 bilhões já coletados.
O objetivo declarado de Trump para as tarifas era ambicioso: usar os recursos para abater parte da colossal dívida nacional de US$ 39 trilhões. Contudo, a análise do CRFB demonstra a distância entre a retórica e a realidade orçamentária. O rombo de US$ 825 bilhões na projeção de arrecadação para a próxima década significa que a trajetória da dívida será pouco alterada. O comitê estima que a dívida atingirá 122% do PIB em 2036 com as novas medidas, contra uma projeção base de 120% — uma diferença marginal.
O xadrez fiscal e o legado
Embora o governo afirme que o propósito principal das tarifas é "pagar a dívida em grande quantidade", os números indicam que o caminho é mais árduo. As novas sobretaxas, amparadas pela Seção 301 do Trade Act, possuem maior segurança jurídica que as anteriores, mas seu alcance é menor. O CRFB aponta que, para compensar integralmente a receita perdida pela decisão da Suprema Corte, seriam necessárias ações adicionais.
As opções sobre a mesa são politicamente custosas: impor ainda mais tarifas, aumentar outros impostos ou promover cortes de despesas. Cada uma dessas vias carrega um capital político e um impacto econômico distintos. A insistência na estratégia tarifária sinaliza uma preferência por uma política protecionista, mas a colisão com os limites fiscais e legais expõe as dificuldades de financiar promessas de campanha.
O dilema da Casa Branca, portanto, transcende a guerra comercial. Ele se torna uma questão central de responsabilidade fiscal. Sem novas fontes de receita ou ajustes significativos no gasto público, o plano de usar o comércio exterior para reequilibrar as contas americanas parece, até o momento, mais uma aspiração do que uma estratégia com fundamentos sólidos.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





