Um novo estudo sobre a resiliência climática na África Subsaariana traz uma conclusão que conecta duas agendas aparentemente distintas: finanças e gênero. A pesquisa, publicada no periódico Climate Risk Management, analisa dados de mais de 25 mil lares chefiados por mulheres em 37 países e estabelece uma correlação direta: o acesso a serviços financeiros formais, como uma conta bancária, aumenta a capacidade de uma família de suportar choques climáticos de curto prazo.
A análise, no entanto, vai além da simples celebração da inclusão financeira. A tese central do artigo é que, embora o capital seja uma ferramenta essencial para absorver o impacto imediato de um evento climático extremo, ele não é suficiente para construir resiliência de longo prazo. Para proteger comunidades contra vulnerabilidades crônicas — como secas prolongadas, inundações recorrentes e a elevação do nível do mar —, o acesso ao sistema financeiro precisa ser acompanhado de um esforço mais amplo e profundo para desmontar barreiras estruturais à igualdade de gênero.
A dupla vulnerabilidade
A pesquisa parte de uma premissa bem documentada: mulheres, especialmente em países em desenvolvimento, sofrem desproporcionalmente os impactos da mudança climática. Fatores como disparidade de renda, taxas mais altas de deslocamento forçado e acesso desigual à posse de terra as colocam na linha de frente da crise. O estudo adiciona uma camada financeira a essa vulnerabilidade. Segundo dados do Banco Mundial citados na reportagem original do Carbon Brief, embora o número de mulheres com conta bancária na região tenha subido para 52% em 2024, o abismo de gênero também aumentou, passando de 5 para 12 pontos percentuais desde 2011.
Motivados pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, os pesquisadores buscaram entender se a inclusão financeira, uma ferramenta de empoderamento, se traduzia em melhores resultados climáticos. Utilizando dados do Afrobarometer e a metodologia da OCDE, que mede a inclusão de forma ampla (incluindo posse de celular e acesso à internet), o estudo confirmou que o acesso financeiro eleva o empoderamento político e econômico feminino. Contudo, em esferas sociais, a conexão se mostrou mais fraca, indicando que o capital, por si só, não apaga barreiras culturais.
Do choque à adaptação
A distinção mais importante do estudo está na diferença entre a capacidade de absorver um choque e a capacidade de se adaptar a ele. Para medir a resiliência, os autores usaram uma métrica da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A conclusão foi que os lares pesquisados tinham uma capacidade relativamente alta de se recuperar de um evento adverso, mas uma capacidade muito baixa de se adaptar preventivamente para reduzir a vulnerabilidade a eventos futuros.
Na prática, o acesso a uma conta bancária ou a crédito de emergência permite que uma mulher compre alimentos após uma colheita perdida ou invista em reparos imediatos. Essa é a absorção do choque. A adaptação, por outro lado, envolve decisões estruturais: investir em sementes resistentes à seca, contratar um seguro climático ou ter voz ativa nos comitês locais de planejamento. O estudo argumenta que o empoderamento financeiro tem um impacto positivo e direto na primeira etapa, mas não garante a segunda. Para isso, são necessárias políticas públicas, como linhas de crédito agrícola com viés de gênero, programas de titularidade conjunta de terras e cotas para mulheres em órgãos de decisão climática.
O debate, portanto, avança para além da digitalização de serviços financeiros ou da expansão do microcrédito. A pesquisa sugere que, para a África Subsaariana — uma das regiões mais vulneráveis do planeta —, a construção de uma economia resiliente ao clima é indissociável da justiça de gênero. As soluções financeiras e tecnológicas são amplificadores potentes, mas seu alcance é, em última instância, delimitado pelas estruturas sociais e culturais em que operam.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Carbon Brief





