Os convites para a Documenta 16, uma das mais importantes exposições de arte do mundo, começaram a ser enviados. E alguns, para a surpresa de poucos, voltaram com uma recusa. A razão não é artística, mas política. Em uma entrevista ao jornal alemão Die Zeit, a nova curadora da mostra, Naomi Beckwith, confirmou que um número não especificado de artistas declinou participar. O motivo: a postura da Alemanha em relação à guerra em Gaza e a sensação de que a liberdade de expressão no país está sob ameaça.

O desafio de Beckwith, diretora-adjunta e curadora-chefe do Guggenheim, é monumental. Ela assume o leme de uma instituição que ainda tenta se recuperar do trauma de sua última edição, em 2022. O fantasma da Documenta 15, e sua amarga controvérsia sobre antissemitismo, paira sobre cada decisão, tornando o terreno para a edição de 2027 um verdadeiro campo minado político e cultural.

O peso da edição anterior

Para entender a sensibilidade do momento, é preciso voltar a 2022. A Documenta 15, curada pelo coletivo indonésio ruangrupa, foi palco de um escândalo que abalou o mundo da arte. Um mural do coletivo Taring Padi exibia uma figura com traços antissemitas, gerando uma onda de críticas e acusações que levaram à remoção da obra. O episódio não foi isolado e marcou toda a exposição, culminando na renúncia em massa do comitê de seleção original para a próxima edição.

O trauma deixou cicatrizes profundas. A instituição Documenta, em resposta, adotou novas diretrizes em seu código de conduta, incluindo a controversa definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Recordação do Holocausto (IHRA), que considera certas críticas ao Estado de Israel como uma forma de preconceito. É neste cenário de vigilância e correção de rota que Beckwith precisa construir uma exposição que seja, ao mesmo tempo, relevante e segura.

O fio da navalha curatorial

Beckwith se encontra em uma posição delicada, quase diplomática. De um lado, precisa garantir a integridade artística da Documenta, um espaço historicamente conhecido por sua vanguarda e ousadia política. Do outro, opera sob o olhar atento do Estado alemão, um dos principais financiadores da mostra, cuja política externa em relação a Israel é um pilar de sua identidade pós-guerra. Os artistas que recusam o convite explicitam essa tensão.

Na entrevista, a curadora opta por uma abordagem conciliadora, afirmando que o mais importante é “fazer a conversa andar novamente” e superar o “pensamento divisionista”. Ela busca um espaço para o diálogo, mas a própria estrutura parece minar essa possibilidade. Questionada sobre o novo código de conduta, Beckwith notou que não foi solicitada a assiná-lo, um detalhe sutil que revela as complexas negociações de poder nos bastidores.

A Documenta 16, antes mesmo de anunciar seu tema, já tem sua questão central definida: pode a arte respirar em um ambiente politicamente rarefeito? Ou ela está, inevitavelmente, presa às fraturas do mundo que a cerca? A resposta de Beckwith a esse dilema definirá não apenas sua exposição, mas talvez o futuro da própria instituição.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews