A história começa com uma morte misteriosa em Bangkok. Um oficial de inteligência, conhecido do pai da artista Taryn Simon, teria sido devorado por um tigre — ou talvez sequestrado pelos chineses. As narrativas do pai, repletas de malas de dinheiro para generais e ameaças da yakuza, nunca puderam ser comprovadas. “Eu nunca soube a história completa”, escreve Simon na abertura de sua ambiciosa exposição no Guggenheim, em Nova York. Essa névoa de dúvida é o ponto de partida para uma investigação sobre a própria natureza da verdade.

A mostra, intitulada Father Country I Do Love You, troca as fábulas paternas por um protagonista real, ainda que anônimo: um agente aposentado do FBI. Ao longo de uma década, ele compartilhou com a artista suas memórias de trabalho, que se tornaram o fio condutor de uma teia de fotografias, esculturas e vídeos. O resultado é uma espécie de história secreta do poder, contada não pelos protagonistas, mas por quem estava na periferia dos grandes acontecimentos.

A Burocracia como Personagem

O agente do FBI não era uma figura central, mas um observador e executor de tarefas em momentos cruciais da história recente americana. Ele analisou destroços da explosão do voo TWA 800 em 1996; recolheu fragmentos no Pentágono após o 11 de Setembro; foi enviado a Nairóbi depois do atentado à embaixada americana em 1998; e montou a sala de evidências para o impeachment de Bill Clinton. Sua carreira é um inventário de crises nacionais.

O que a obra de Simon sugere é que, em estruturas burocráticas tão vastas, a responsabilidade se pulveriza. O agente é um elo em uma corrente de comando impessoal, um executor de ordens cuja visão do todo é, por definição, limitada. A exposição não busca heróis ou vilões. Em vez disso, retrata um sistema onde a agência individual se dissolve na engrenagem, levantando uma questão incômoda: se todos são apenas peças, quem, no fim, é responsável?

Entre Fato e Ficção

A genialidade de Simon está em apresentar fatos documentados com a mesma aura de suspeita das histórias de seu pai. As conexões que ela estabelece entre pessoas, eventos e estruturas governamentais soam, por vezes, como teorias da conspiração, ainda que sejam factuais. Essa ambiguidade é intencional. Ao justapor a memória falível e a evidência concreta, a artista força o espectador a questionar a solidez de qualquer narrativa.

O design da exposição, que replica uma réplica da sala de estar do espião de Bangkok, reforça essa sensação de simulacro. Estamos sempre a um passo de distância da origem, em um labirinto de representações. A verdade não é revelada, mas apresentada como um quebra-cabeça cujas peças podem ou não se encaixar.

Ao final, a sensação não é de clareza, mas de um profundo estranhamento. A investigação de Taryn Simon não oferece respostas. Em vez disso, ela nos deixa com a pergunta mais inquietante de todas: em um mundo onde os fatos são tão improváveis quanto a ficção, como podemos sequer começar a procurar pela verdade?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic