“É como vestir a cueca de outra pessoa e dizer que é sua.” A confissão de Tomokazu Matsuyama, um dos nomes mais relevantes da arte contemporânea nipo-americana, captura a estranheza e a intimidade de sua nova exposição. O cenário não é uma galeria de paredes brancas, mas o antigo ateliê do gigante da pop art Tom Wesselmann no East Village, em Nova York. Pincéis, tubos de tinta e até um par de luvas com as iniciais do mestre falecido em 2004 compõem o ambiente onde Matsuyama instala suas próprias obras.

A mostra, aberta a visitas agendadas até o fim de setembro, é o resultado de uma colaboração formal entre o artista e o espólio de Wesselmann. Mais do que uma simples homenagem, a ocupação do espaço se torna o palco para uma conversa densa sobre influência, apropriação e a evolução de uma sensibilidade que ajudou a definir o século XX — e que continua a ecoar hoje.

Uma conversa iniciada em Paris

A semente para este encontro foi plantada em Paris. O espólio de Wesselmann convidou Matsuyama para participar da exposição “Pop Forever, Tom Wesselmann &…”, na Fondation Louis Vuitton, ao lado de estrelas como Jeff Koons e Derrick Adams. A experiência levou Matsuyama a um mergulho profundo na obra do predecessor, um estudo que, segundo ele, “levou mais tempo do que criar as pinturas”. O resultado é visível na justaposição das obras no ateliê.

Se Wesselmann chocou ao incorporar imagens de bens de consumo e da história da arte em suas telas, Matsuyama eleva a apropriação a um novo patamar. De um lado do estúdio, a obra de Wesselmann Still Life #35 (1963) exibe um pão de forma, um maço de cigarros e um fardo de refrigerante. Do outro, Matsuyama responde com We the People (2025), que recria A Morte de Sócrates, de Jacques-Louis David, mas ambienta a cena filosófica nos corredores de um supermercado. No lugar da cicuta, Sócrates bebe uma tigela do cereal Froot Loops, enquanto remédios para diabetes repousam na prateleira ao fundo. A filosofia grega encontra o Costco.

Legado, intimidade e mercado

Ambos os artistas possuem forte presença no mercado. O recorde de Matsuyama em leilão é de US$ 647 mil, enquanto Wesselmann já ultrapassou a marca de US$ 10 milhões — um valor considerado modesto para um gigante da pop art. A exposição, portanto, não é apenas um diálogo estético, mas um encontro entre dois ativos culturais de grande valor, mediado pela galeria Almine Rech.

Essa tensão se aprofunda com a inclusão de trabalhos da série “Bedroom Paintings” de Wesselmann, que exploram closes de partes do corpo feminino e objetos de mesinhas de cabeceira. Uma das telas, Bedroom Painting #19 (1969), chega a exibir o pênis ereto do próprio artista. Para Matsuyama, que vem de uma cultura japonesa onde os espaços domésticos são extremamente privados, a disposição americana em expor a intimidade — seja no quarto ou no ateliê — é uma fonte de fascínio e um ponto de conexão com a obra de Wesselmann.

A magia da exposição reside em sua localização. Questionados sobre a possibilidade de a mostra viajar, os organizadores se mostraram céticos. A força do encontro está justamente no fato de acontecer no espaço pessoal de Wesselmann, rodeado por seus objetos. Jeffrey Sturges, do espólio do artista, define a iniciativa de forma precisa: “É uma proposta”. Uma proposta que não busca dar respostas, mas que lança uma excitante pergunta sobre como a arte conversa consigo mesma através do tempo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews