O próximo ciclo presidencial brasileiro, a partir de 2027, caminha para um ambiente de forte atrito institucional entre Executivo, Legislativo e Judiciário. A consequência direta, independentemente de quem vença a eleição de 2026, será o rebaixamento da agenda econômica a uma prioridade secundária.
A avaliação é de Mário Braga, analista de geopolítica para a América Latina na consultoria de risco RANE, e foi apresentada em um evento do Money Times. A tese central é que o capital político do próximo governo será consumido em disputas de poder em Brasília, deixando de lado as reformas estruturantes e os marcos regulatórios necessários para atrair investimentos.
O atrito contratado
O cenário de instabilidade parece inevitável, mas suas causas variam conforme o resultado da eleição. Em uma eventual reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, o conflito tenderia a se concentrar na relação com o Congresso, especialmente em torno do controle do orçamento. Nessa dinâmica, o Palácio do Planalto poderia usar o Supremo Tribunal Federal (STF) como um instrumento para se contrapor ao Legislativo, aprofundando a crise.
Se o vitorioso for Flávio Bolsonaro, o eixo da tensão muda. A projeção aponta para uma aliança “mais natural” entre a Presidência e o Congresso, mas com um alvo claro: o Judiciário. O objetivo poderia ser a abertura de processos de impeachment contra ministros do STF, como Alexandre de Moraes. Em ambos os casos, o resultado prático é a paralisia, com a energia do governo focada na sobrevivência política e não na gestão econômica.
Geopolítica e ajuste fiscal no retrovisor
Com a pauta institucional dominando o debate, a agenda econômica perde tração. Reformas fiscais, tributárias e a criação de novos marcos regulatórios — cruciais para setores que dependem de segurança jurídica — ficariam em compasso de espera. Para Braga, “isso tudo deixa de ser prioridade” em um cenário de enfrentamento agudo.
A análise se estende à política externa. Um governo Lula reeleito manteria o viés multilateral, mas enfrentaria relações “voláteis” com um eventual governo Trump nos EUA. Já com Flávio Bolsonaro, o alinhamento com Washington seria automático, acompanhado de um escrutínio maior sobre investimentos chineses em áreas estratégicas, como minerais críticos e portos. Até o ajuste fiscal teria pesos diferentes: mínimo e reativo com Lula; mais austero e disciplinar com Bolsonaro.
O ponto central da análise não é prever um vencedor, mas alertar para a alta probabilidade de um ambiente político onde a pauta econômica se torna coadjuvante. Para investidores e o setor produtivo, o sinal é de que o próximo ciclo de quatro anos pode ser definido mais pelas manobras de poder em Brasília do que por avanços na economia real.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





