A narrativa dominante sobre o futuro da robótica humanoide costuma se concentrar em uma disputa bilateral entre os Estados Unidos, com players como Figure e Tesla, e a China, com seu forte impulso estatal e industrial. No entanto, uma análise mais atenta revela um terceiro polo competitivo se formando na Europa, com uma abordagem fundamentalmente diferente.

Segundo reportagem do site espanhol Xataka, o continente europeu já abriga ao menos sete companhias relevantes no setor. A tese central, contudo, não é a quantidade, mas a qualidade do modelo de negócio. Enquanto startups americanas buscam validação em rodadas de venture capital multibilionárias, as europeias constroem seu caminho através de uma simbiose com a própria indústria que pretendem servir.

O modelo industrial europeu

A principal distinção do ecossistema europeu é a integração vertical entre as startups de robótica e os gigantes industriais. O modelo funciona como um ciclo virtuoso: uma grande corporação, como a fabricante de componentes automotivos Schaeffler, investe na startup alemã NEURA Robotics, torna-se sua fornecedora de peças e, finalmente, sua cliente, implementando os robôs em suas próprias fábricas.

Este padrão se repete em outros casos, como a relação da Renault com a Wandercraft e da BMW com a Agile Robots. A gigante automobilística não apenas é cliente, mas também integrou sua própria subsidiária de automação logística à Agile. O resultado é um desenvolvimento mais pragmático, com menos capital especulativo e mais focado em resolver problemas reais de produção, garantindo um cliente inicial e um caminho claro para a comercialização.

Quem é quem no tabuleiro

Este ecossistema já produziu competidores notáveis. A alemã NEURA Robotics, apesar de um incidente viral em que seu robô 4NE1 pareceu "desmaiar" em um evento, avança com a comercialização de suas unidades para uso industrial. A sueca Hexagon Robotics, por sua vez, desenvolveu o AEON, um humanoide com rodas em vez de pés que já opera em plantas da BMW realizando tarefas de inspeção.

A Agile Robots, também da Alemanha, é outro exemplo de maturidade. A empresa já possuía uma vasta carteira de clientes em automação industrial antes mesmo de anunciar seu humanoide, o Agile ONE, alavancando sua experiência e reputação para entrar no novo segmento. Essas empresas não nascem do zero, mas evoluem de um robusto tecido industrial preexistente.

Enquanto a corrida nos EUA e na China é marcada pela busca de capital e avanços tecnológicos midiáticos, a abordagem europeia é mais sóbria e pragmática. A questão que fica no ar não é quem chegará primeiro, mas qual modelo — o do capital de risco ou o da parceria industrial — se provará mais resiliente e escalável a longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka