O mundo produziu 2.680 novos milionários por dia em 2025, em meio a uma aceleração na criação de riqueza não vista em quase uma década. A alta nos mercados de ações, impulsionada pela febre da inteligência artificial, e a valorização de imóveis em mercados-chave elevaram o número total de indivíduos com patrimônio superior a US$ 1 milhão para 57,5 milhões globalmente.
Os dados são do relatório Global Wealth Report, do banco suíço UBS, e detalhados em reportagem do site espanhol Xataka. Embora os Estados Unidos tenham liderado a criação de novas fortunas, o caso da Espanha é particularmente instrutivo. O país europeu cruzou a linha de 1 milhão de milionários, mas exibe um modelo de acumulação patrimonial distinto, que oferece uma perspectiva diferente sobre a anatomia da riqueza.
O modelo espanhol
A Espanha se destaca por ter um índice de Gini patrimonial (0,57) mais baixo — ou seja, menos desigual — que o de vizinhos como Alemanha (0,67) e potências como os Estados Unidos (0,77). A explicação não está na ausência de ricos, mas na estrutura de sua riqueza. Quase metade da população espanhola possui um patrimônio entre US$ 100 mil e US$ 1 milhão, concentrando 60% da riqueza do país.
O fator decisivo é o "ladrillo", o tijolo. Apenas 31% da riqueza bruta das famílias espanholas está em ativos financeiros como ações e fundos. A maior parte está ancorada em imóveis. Isso cria uma base de riqueza mais ampla e menos volátil do que a observada em economias onde a fortuna é predominantemente financeira e, por consequência, mais concentrada no topo da pirâmide.
Lições para o Brasil?
O paralelo com o Brasil é sugestivo. O mercado brasileiro também possui uma forte cultura de investimento em imóveis como reserva de valor. No entanto, nos últimos anos, o ecossistema de tecnologia financeira local tem trabalhado intensamente para "financiarizar" o investidor médio, ampliando o acesso ao mercado de capitais.
O caso espanhol não serve como um veredito contra a sofisticação financeira, mas como um lembrete de que há múltiplos caminhos para a construção de patrimônio em escala nacional. O modelo espanhol, menos dependente da performance da bolsa e mais atrelado a um ativo tangível e culturalmente valorizado, mostra como uma classe média patrimonial pode se formar com características próprias.
A questão que se impõe a mercados emergentes como o Brasil não é apenas como gerar mais riqueza, mas qual o perfil de riqueza que está sendo construído. A explosão global de ativos financeiros cria fortunas rapidamente, mas a solidez do tijolo continua a ser um pilar fundamental de estabilidade patrimonial para uma fatia mais ampla da sociedade em certas geografias.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





